Torrente que em mim te partes,
rio bruto, veia aberta, despenhada, sem peias —
tuas bordas me beijam, me cercam,
me enchem de não ter fim.
... Tu, rio que corres sem sossego, com fome,
rio que afogas meu peito de sonhos e espumas.
Tu, rio que em mim te quebras, que sou mar,
que te espero com a gula de um deus sem juízo.
Mar que traz na língua o gosto mel.
Tu és Doce, Eu sou Sal.
Mistura-nos, embriaga-nos, e juntos
rompemos abismos, rasgamos recifes,
engolimos ventos.
Tu, rio que em mim te perdes,
não és mais que água — és fera.
Vem, que aqui te aguardo, bravio e salgado,
doce e louco, vem — traz nos teus flancos
vagas de unhas e dentes.
Desaba em mim.
Afoga-te.
Fica.

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