Quando o dia enfim se rompe,
restam nossos corpos em silêncio,
exaustos, radiantes, entrelaçados
como se a madrugada tivesse sido escrita
para guardar o contorno da nossa fome.
As pernas ainda se procuram
num nó de calor e ternura,
e o quarto, desfeito ao redor,
parece respirar conosco
depois da tempestade.
Há cicatrizes que não ferem,
há marcas que contam a história
do que fomos capazes de sentir.
E eu as leio na tua pele
como quem lê uma confissão antiga,
uma língua secreta feita de excesso,
de entrega, de verdade.
Agora estás aqui,
de carne, de suor, de presença viva,
e o meu corpo te reconhece
antes mesmo de qualquer pensamento.
Não há distância,
não há defesa,
não há nome suficiente
para o que cresce entre nós.
Eu me aproximo da tua força
como quem entra numa chama sem medo.
Teu calor me chama por dentro,
teu fôlego me atravessa,
e tudo em mim se inclina
para esse centro ardente
onde o desejo se torna abrigo
e a febre parece paz.
Há algo de antigo nesse encontro,
como se o corpo soubesse primeiro
o que a alma só depois entende.
E nós, rendidos a essa sabedoria bruta,
ficamos ali, suspensos,
tomados por uma intensidade sem descanso,
por uma ternura feroz,
por uma vontade que não se explica
e só cresce.
Os lençóis guardam o mapa da noite,
as peles guardam o eco da chama,
e cada gesto permanece vivo
como verso escrito com respiração e tremor.
Nada em nós volta a ser simples.
Tudo agora tem peso,
fogo,
memória,
e o brilho feroz

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