TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





sexta-feira, 10 de março de 2023

LENÇOIS EM FOGO



Quando o dia enfim se rompe,  
restam nossos corpos em silêncio,  
exaustos, radiantes, entrelaçados  
como se a madrugada tivesse sido escrita  
para guardar o contorno da nossa fome.  

As pernas ainda se procuram  
num nó de calor e ternura,  
e o quarto, desfeito ao redor,  
parece respirar conosco  
depois da tempestade.  

Há cicatrizes que não ferem,  
há marcas que contam a história  
do que fomos capazes de sentir.  
E eu as leio na tua pele  
como quem lê uma confissão antiga,  
uma língua secreta feita de excesso,  
de entrega, de verdade.  

Agora estás aqui,  
de carne, de suor, de presença viva,  
e o meu corpo te reconhece  
antes mesmo de qualquer pensamento.  
Não há distância,  
não há defesa,  
não há nome suficiente  
para o que cresce entre nós.  

Eu me aproximo da tua força  
como quem entra numa chama sem medo.  
Teu calor me chama por dentro,  
teu fôlego me atravessa,  
e tudo em mim se inclina  
para esse centro ardente  
onde o desejo se torna abrigo  
e a febre parece paz.  

Há algo de antigo nesse encontro,  
como se o corpo soubesse primeiro  
o que a alma só depois entende.  
E nós, rendidos a essa sabedoria bruta,  
ficamos ali, suspensos,  
tomados por uma intensidade sem descanso,  
por uma ternura feroz,  
por uma vontade que não se explica  
e só cresce.  

Os lençóis guardam o mapa da noite,  
as peles guardam o eco da chama,  
e cada gesto permanece vivo  
como verso escrito com respiração e tremor.  
Nada em nós volta a ser simples.  
Tudo agora tem peso,  
fogo,  
memória,  
e o brilho feroz  
de quem se encontrou por inteiro.





  Cléia Fialho


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