O sexo entre nós tem seguido um padrão ultimamente. Um ritual que já conhecemos de cor, como uma dança ensaiada que nunca perde a graça, mesmo quando os passos são sempre os mesmos.
Começa sempre com um "não" dito baixinho, quase por educação. Depois vem o abraço que aperta mais do que devia. Um beijo perdido aqui, outro ali, mais um "não" que já não engana ninguém, outro abraço mais forte... e quando percebemos, já estamos mergulhados um no outro, esquecidos do mundo, com uma única missão: matar aquela saudade que aperta o peito e faz doer.
Não há novidade nisso. É sempre assim, e continua sendo bom. Talvez até bom demais.
Mas tem algo diferente agora. Uma camada nova, uma textura que antes não existia.
Há mágoa, sim. Isso não mudou. O amor... bem, o amor foi embora faz tempo, deixando apenas um eco vago, uma lembrança do que já fomos. Mas a paixão ainda está ali, teimosa, resistindo. E a tesão... ah, a tesão é a única coisa que nunca abandonou este quarto.
Apenas um detalhe mudou. Um pequeno pormenor. Quase invisível.
Depois que tudo acabou, quando os corpos finalmente se separaram e a respiração voltou ao normal, ele me olhou com um jeito diferente. Seus olhos tinham uma perguntas que a boca demorou a formular.
— Hoje senti algo estranho — disse, a voz ainda um pouco rouca. — Não estávamos sozinhos na sua cama.
Eu sorri. Não um sorriso feliz, mas aquele sorriso de quem sabe de um segredo há muito tempo.
— Pois não, meu bem — respondi, passando os dedos pelo peito dele. — Há muito tempo que sinto que somos três na cama. Há muito tempo que temos uma presença invisível entre nós, uma sombra que se deita ao nosso lado.
Ele franziu a testa, confuso.
— Mas esta noite... esta noite eram quatro.
O silêncio caiu pesado entre nós. Eu podia ver os pensamentos girarem na cabeça dele, tentando entender. A verdade é que a cama sempre foi pequena demais para tanta gente. Primeiro foi apenas nós dois. Depois veio o fantasma do que já fomos, aquela versão nossa que ainda se amava de verdade. Depois veio o desejo desesperado de voltar atrás no tempo. E agora...
Agora havia um quarto elemento.
— Quem são os outros? — ele perguntou, a voz quase um sussurro.
Olhei para o teto, pensando em como explicar.
— Tem você, claro. Tem o homem que você era quando me amava de verdade. Tem o homem que você é agora, que sente tesão mas não sente amor. E tem... bem, tem a mulher que eu estou tentando ser.
Ele não entendeu. Talvez nunca entenda.
Mas eu sei. Sei que cada vez que nos deitamos juntos, somos uma plateia de fantasmas se observando. O passado, o presente, o desejo, a mágoa, tudo misturado naquele lençol suado.
E esta noite, pela primeira vez, senti que o quarto convidado era mais forte que todos nós. Mais presente. Mais real.
— Ela estava aqui — continuei, a voz baixa como se estivesse contando um segredo sagrado. — Foi ela quem guiou minhas mãos, quem sussurrou no meu ouvido, quem fez cada movimento ser mais intenso.
— Ela? — ele repetiu, sem entender.
— A mulher que você quer que eu seja. A que você deseja, mas que nunca chega a encontrar. A que caberia perfeitamente no espaço vazio que você deixou no seu coração.
Ele ficou em silêncio. O quarto escuro nos engolia. Lá fora, a noite seguia seu curso, indiferente às nossas confissões.
Pensei em tudo o que não foi dito. Em como o amor pode se transformar em algo que a gente não reconhece. Em como duas pessoas podem estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo.
— Nós nos tornamos uma multidão — falei por fim. — Cada um de nós carrega tantas versões de si mesmo que já não cabe numa cama de casal.
Ele me puxou para perto. Não era um gesto de amor, mas de consolo. Ou talvez de medo. De sentir que estava perdendo não só a mim, mas a todos os eus que ele conheceu.
O tempo passou. O relógio na parede marcava horas que eu não queria ver. O sol começava a clarear a janela, e as sombras da noite se dissipavam.
— E amanhã? — ele perguntou. — Quantos vamos ser amanhã?
Não respondi. Porque a verdade era que eu também não sabia. Talvez mais. Talvez menos. Talvez apenas um de nós, finalmente decidido a partir.
Mas naquela noite, enquanto o sono nos vencia, eu sabia que a cama estava cheia. Cheia de memórias, de desejos não realizados, de pessoas que fomos e pessoas que poderíamos ter sido.
Quatro corpos num espaço feito para dois.
Quatro almas num amor que já não cabe em lugar nenhum.
E no meio de tudo isso, eu ainda sentia aquela pontada no peito. Não era amor. Não era mágoa. Era apenas a certeza de que, quando a noite terminasse, restariam as cinzas de tudo o que construímos.
Mas enquanto a noite durasse, estaríamos ali, eu, ele, e os outros dois. A plateia invisível. O quarteto impossível. O segredo que a cama guardava entre seus lençóis amassados.
— Vamos dormir — disse, finalmente.
Ele anuiu. E enquanto fechava os olhos, eu podia jurar que via as sombras se movendo ao redor da cama. Elas nos observavam, nos julgavam, nos desejavam.
Éramos quatro. E nenhum de nós sabia como voltar a ser um.
❦
Cléia Fialho
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