TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





sábado, 12 de outubro de 2019

NO CANTO DA BOCA


Desejo não bate na porta.
Ele escorrega pela fresta.
Mora na nuca,
no canto da boca,
no intervalo entre "oi" e "tchau".
É vontade.
Vontade que não se explica,
só se sente.

É pensar em alguém
e o corpo responder
antes da mente pedir permissão.
Desejo é urgência lenta.
É olhar que segura.
É pele que lembra
mesmo sem ter encostado.

É imaginação que inventa cenário
com luz baixa,
voz mais grave,
tempo que estica.
Ele não tem compromisso com a lógica.
Pode vir de um riso,
de uma camisa molhada,
de uma conversa boba às 2 da manhã.

Pode nascer do nada
e incendiar a semana inteira.
Desejo cansa e cura.
Tira o sono.
Deixa a gente distraída,
sorrindo sozinha no trânsito.
Faz a gente se arrumar mais,
caminhar diferente,
sentir mais viva.

E tem medo também.
Medo de se entregar demais.
Medo de não ser correspondido.
Medo de ser só isso.
Mas mesmo com medo,
ele insiste.
Porque lembrar que a gente deseja
é lembrar que a gente quer viver.

Desejo não é só sobre o outro.
É sobre você também.
É sobre querer,
se permitir,
sentir o próprio corpo
dizendo "eu tô aqui".
E quando ele encontra abrigo,
vira carinho.
Quando não encontra,
vira poesia.
E de um jeito ou de outro,
ele deixa a gente mais inteira.




  Cléia Fialho

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