Desejo não bate na porta.
Ele escorrega pela fresta.
Mora na nuca,
no canto da boca,
no intervalo entre "oi" e "tchau".
É vontade.
Vontade que não se explica,
só se sente.
É pensar em alguém
e o corpo responder
antes da mente pedir permissão.
Desejo é urgência lenta.
É olhar que segura.
É pele que lembra
mesmo sem ter encostado.
É imaginação que inventa cenário
com luz baixa,
voz mais grave,
tempo que estica.
Ele não tem compromisso com a lógica.
Pode vir de um riso,
de uma camisa molhada,
de uma conversa boba às 2 da manhã.
Pode nascer do nada
e incendiar a semana inteira.
Desejo cansa e cura.
Tira o sono.
Deixa a gente distraída,
sorrindo sozinha no trânsito.
Faz a gente se arrumar mais,
caminhar diferente,
sentir mais viva.
E tem medo também.
Medo de se entregar demais.
Medo de não ser correspondido.
Medo de ser só isso.
Mas mesmo com medo,
ele insiste.
Porque lembrar que a gente deseja
é lembrar que a gente quer viver.
Desejo não é só sobre o outro.
É sobre você também.
É sobre querer,
se permitir,
sentir o próprio corpo
dizendo "eu tô aqui".
E quando ele encontra abrigo,
vira carinho.
Quando não encontra,
vira poesia.
E de um jeito ou de outro,
ele deixa a gente mais inteira.
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