TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





terça-feira, 19 de novembro de 2019

AULA DE ANATOMIA


Tu deitas na mesa da cozinha
e eu finjo que vou dissecar teu corpo com a ponta dos dedos.
Teus olhos fechados 
— confiança ou rendição?

Começo pelos teus pés
— arcos perfeitos, dedos que se contraem quando eu toco.
Tu ris baixo e eu sigo
subindo, subindo, sempre devagar.

Teu joelho treme quando eu mordo tua coxa
e eu anoto mentalmente: "ponto sensível"
mas não anoto nada 
— só guardo teu gemido na memória.

Tuas mãos estão atadas — não com corda
mas com a promessa de que não vais te mexer
e tu obedeces como quem quer ser premiada.

Quando chego ao teu ventre, paro
Tu abres um olho e perguntas: "vai ficar aí?".
Eu não respondo 
— desço minha língua como quem faz uma incisão
e tu te arrepias inteira.

No final, não há bisturi, não há ciência.
Só o conhecimento profundo
que teu corpo já me entregou antes
e que eu guardo como tese.
— defendida com suor e saliva
na mesa de fórmica branca
onde ninguém jamais comeu jantar tão perfeito.




  Cléia Fialho

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