Vi-o ao balcão do bar do hotel. Estava sozinha em Lisboa, numa viagem de trabalho que já tinha acabado, com um voo às sete da manhã e uma cama de hotel que não me apetecia nada. Desci ao bar por causa do tédio. E ali estava ele — de fato escuro, gravata desapertada, um whisky à frente e um livro que…
domingo, 16 de agosto de 2015
QUARTO 47
terça-feira, 11 de agosto de 2015
ESTRADA À NOITE
Encostámos o carro num caminho de terra, longe de tudo. Nem eu sabia porquê ali. Ele tinha-me dito *"quero mostrar-te uma coisa"* e eu tinha entrado no carro sem perguntar, porque a esta altura já sabia que qualquer coisa dele era desculpa para o mesmo — para isto, para nós, para esta fome…
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
A BIBLIOTECA
Descobri-o na secção de poesia francesa. Eram nove da noite de uma quinta-feira, a biblioteca da faculdade quase deserta, e eu procurava um Baudelaire que já não estava onde devia estar. Encontrei-o nas mãos dele. — *Desculpa* — disse eu. — *Estava à procura desse livro há uma semana.* Ele levantou os…
sábado, 1 de agosto de 2015
NOITE DE TEMPESTADE
O trovão chegou antes da chuva. Estava sozinha em casa quando as luzes piscaram uma vez, duas, e apagaram-se de vez. Andei até à janela do quarto às apalpadelas. Lá fora, o mundo era uma coisa preta e violenta — árvores curvadas ao vento, faixas de chuva a atravessarem os postes de luz. Um relâmpago…
segunda-feira, 27 de julho de 2015
O ELEVADOR
Ele entrou no elevador no oitavo andar. Eu já estava lá dentro — a descer sozinha, depois de mais uma reunião interminável, os saltos a matarem-me e o vestido preto colado ao corpo por causa do calor de Julho. Quando as portas se abriram e o vi, senti o estômago dar aquele salto ridículo que já não …
sábado, 25 de julho de 2015
QUARTO 304
A porta fecha. O trinco range como um segredo que ninguém deveria ouvir. Não acendo a luz. Deixo que a cidade, lá fora, faça o serviço: um néon vermelho pulsa na janela e pinta o teu ombrode sangue e de promessa. Fico de costas por um instante. Só o tempo de deixar cair a alça do vestido — um gesto pequ…
quarta-feira, 22 de julho de 2015
TRANSBORDO — VONTADE DE TI...
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domingo, 19 de julho de 2015
A BANHEIRA
O vapor sobe primeiro. Antes de ti, antes de mim, antes de qualquer gesto, é o vapor que enche o quarto, embaça o espelho, apaga o mundo lá fora como quem fecha uma porta que ninguém mais vai abrir. Estou na banheira. De olhos fechados, a nuca apoiada na borda, um braço caído para fora como uma vírgul…
sexta-feira, 17 de julho de 2015
AULA PARTICULAR
Cheguei atrasada. De propósito. Sabia que ele estava a arrumar o estúdio — luzes baixas, o parquet a cheirar a cera, o cheiro dele já pousado no ar antes mesmo de me ver entrar. Dez semanas de aulas de tango. Dez semanas a fingir que era só isto: uma mulher a aprender a dançar. Mas hoje era a última …
quinta-feira, 25 de junho de 2015
MEU CORPO PROCURA O TEU
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quarta-feira, 24 de junho de 2015
ANIMAL EM CHAMAS
Submisso como fera faminta, ele se aproximou da carne como quem fareja destino. Os dedos, trêmulos, buscavam passagem, um vão onde pudesse mergulhar a cabeça e perder-se. Ela cedeu, e o espaço tornou-se abismo. A língua dele era lâmina ardente, cortando o silêncio, invadindo o território proibido. E…
terça-feira, 23 de junho de 2015
O SEGREDO DOS OLHARES
Ela me esperava como quem guarda um incêndio dentro da pele. O corpo palpitava em silêncio, os lábios grossos e úmidos se abriam em convite, e o calor que desprendia de sua carne trazia consigo um perfume desconhecido, mistura de flores estranhas e mistério. O ar ao redor parecia vibrar, carregado …