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sábado, 1 de agosto de 2015

NOITE DE TEMPESTADE




O trovão chegou antes da chuva.

Estava sozinha em casa quando as luzes piscaram uma vez, duas, e apagaram-se de vez. Andei até à janela do quarto às apalpadelas. Lá fora, o mundo era uma coisa preta e violenta — árvores curvadas ao vento, faixas de chuva a atravessarem os postes de luz. Um relâmpago rasgou o céu ao meio e mostrou tudo, por uma fracção de segundo, com uma nitidez insuportável.
Foi nesse instante que a campainha tocou.
O meu coração, antes da cabeça, já sabia. Já se lembrava de que ele tinha dito, três semanas atrás, com aquela voz baixa que sempre me despia mais do que as mãos:

— *Se um dia houver uma tempestade a sério, eu apareço.*

Eu tinha rido. Ele não.
Desci as escadas com uma vela na mão e abri a porta.
Estava lá. Encharcado dos pés à cabeça, o cabelo colado à testa, os olhos escuros a brilharem como se estivessem a beber a luz da vela. A camisa colava-se-lhe ao peito, e eu vi o desenho do seu corpo por baixo — o mesmo corpo que já tinha estado sobre o meu, dentro do meu, tantas vezes que a memória do meu corpo o conhecia melhor do que a memória da minha cabeça.

Não disse nada. Só me olhou.
— *Entra* — sussurrei.

Ele entrou, fechou a porta com o pé, e antes que eu conseguisse dar mais um passo, a sua mão já tinha encontrado a minha nuca e a sua boca já tinha encontrado a minha.
Beijou-me como quem chega a casa depois de uma guerra.
O beijo tinha sabor a chuva, a frio, a fome antiga. A vela caiu-me da mão e rolou pelo chão, apagando-se. Outro relâmpago acendeu o corredor e eu vi-lhe o rosto iluminado a azul — os olhos fechados, as pestanas molhadas, a mandíbula tensa.

— *Estás gelado* — sussurrei contra os seus lábios.
— *Aquece-me.*

Puxei-o pela camisa molhada, escadas acima, aos tropeções. A casa toda respirava com a tempestade — as vidraças tremiam, o vento assobiava pelas frestas como um animal a querer entrar. E nós subíamos, boca contra boca, com aquela urgência antiga que só as noites assim conseguem convocar.
No quarto, comecei a despi-lo. Os botões resistiam — arranquei os últimos com um gesto impaciente que o fez rir contra o meu ouvido. A camisa caiu com um baque molhado. Depois o cinto. Depois as calças.
E quando ficou nu diante de mim, à luz intermitente dos relâmpagos, parei um instante. Só para o olhar.
Deu um passo em frente. Outro. Até me ter contra a parede.

— *Tive saudades* — disse.
Não perguntei do quê. Sabia.

A boca dele desceu-me pelo pescoço, mordeu-me a clavícula, encontrou-me o seio e demorou-se ali, como se estivesse a reaprender-me. Eu enterrei-lhe os dedos no cabelo molhado e arqueei as costas contra o gesso frio, gemendo baixinho — e ele engoliu o gemido com um sorriso.

Um trovão rebentou tão perto que a casa toda estremeceu.
— *A tempestade está com ciúmes* — sussurrou contra a minha pele.
— *Que tenha.*

Foi aí que ele me pegou ao colo. Não foi um gesto romântico — foi um gesto de fome. Prendeu-me as pernas à volta da sua cintura e caminhou até à cama sem tirar a boca da minha.
Caímos juntos, um emaranhado de peles a procurarem-se. Ele beijou-me toda — a boca, o pescoço, os seios, o ventre — e ainda mais devagar, ainda mais fundo, encontrou-me com a boca no lugar onde eu já o esperava desde o primeiro trovão da noite.
Perdi-me no lençol, no escuro, no cheiro dele misturado com o cheiro da chuva. Um relâmpago iluminou o quarto e eu vi-o entre as minhas pernas — olhos fechados, concentrado, como quem reza. Essa imagem ficou-me presa por trás das pálpebras.

— *Vem cá* — pedi. — *Preciso de ti.*

Subiu devagar, arrastando a boca pelo meu corpo como uma assinatura. Beijou-me outra vez — beijei-me com o meu próprio gosto na boca dele — e entrou em mim com aquela lentidão que me desarma.

— *Olha para mim.*

Olhei. Os olhos dele, ali, tão perto, tão dentro. Um relâmpago iluminou-lhe o rosto e eu vi tudo — o desejo, a saudade, essa coisa antiga que nos prende há tanto tempo.

Começou a mover-se. Devagar primeiro. Depois fundo, exacto, aquele ritmo que só existe entre duas pessoas que já se conhecem de cor. As minhas mãos agarraram-lhe as costas, senti a pele dele arrepiar-se, e ele gemeu junto ao meu ouvido — um gemido rouco, contido, que me fez apertá-lo ainda mais entre as coxas.
A cadência foi crescendo com a tempestade.
A chuva batia mais forte na janela. O vento uivava. E nós, dentro do quarto, éramos outra tempestade — mais quente, mais húmida, mais desesperada.
Senti a onda a chegar. Vinha das coxas, subia pelo ventre, apertava-me a garganta.

— *Vem* — disse-me. — *Vem comigo.*
E eu vim.

Vim com um trovão a estoirar por cima do telhado, com um relâmpago a acender o quarto inteiro, com o corpo dele a tremer sobre o meu no exacto mesmo instante. Fiquei sem ar. Fiquei sem nome. Fiquei sem nada, excepto ele.
Depois foi o silêncio nosso. A respiração a acalmar. As mãos a descobrirem ternuras mais lentas.
Ele deitou a cabeça no meu peito. Eu passei-lhe os dedos pelo cabelo, que já estava a secar.

— *Ainda bem que houve tempestade* — sussurrei.
Riu baixinho e beijou-me a pele sobre o coração.

— *Ia aparecer de qualquer forma* — disse. — *A tempestade foi só a desculpa.*

Ficámos assim muito tempo. A ouvir a chuva. A sentir o cheiro molhado que entrava pela janela aberta que nenhum de nós teve coragem de ir fechar.

Adormecemos abraçados.
E quando acordei, de manhã, ele dormia ao meu lado, o braço atravessado sobre a minha cintura, a respiração calma.

Sorri no escuro do lençol.
E pensei, sem dizer em voz alta, que da próxima vez não ia esperar pela tempestade.

Da próxima vez, era eu que a fazia.




Cléia Fialho

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