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sexta-feira, 17 de julho de 2015

AULA PARTICULAR

 




Cheguei atrasada. De propósito.

Sabia que ele estava a arrumar o estúdio — luzes baixas, o parquet a cheirar a cera, o cheiro dele já pousado no ar antes mesmo de me ver entrar. Dez semanas de aulas de tango. Dez semanas a fingir que era só isto: uma mulher a aprender a dançar.

Mas hoje era a última aula. E hoje eu não vinha para dançar.

— Chegaste tarde — disse ele, sem levantar os olhos, enrolando o cabo do gira-discos.

— Cheguei quando queria chegar.

Levantou o olhar. E aquele olhar dele — escuro, lento, o que sempre me atravessava de uma forma que a música nunca me atravessou — pousou-se-me no vestido preto colado. Deteve-se um segundo a mais no decote. Outro segundo a mais nas coxas.

— Vieste com um vestido para dançar tango?

— Vim com um vestido para o que quiseres.

Não riu. Não sorriu. Só se ergueu devagar, atravessou o estúdio, e apagou uma das duas lâmpadas. O quarto ficou em penumbra âmbar, quente, apertada.

Aproximou-se. Parou a um palmo.

— Sabes que se te tocar agora não é aula.

— Sei.

— E queres.

— Já sabes que quero. Desde a segunda aula que sabes.

Puxou-me pela cintura com uma mão só — aquele gesto seco de tango, mas sem música desta vez — e encostou-me a ele. Senti-o inteiro. Senti que também ele já estava a três semanas de não conseguir mais fingir.

A boca dele desceu-me pelo pescoço antes de tocar a minha. Um beijo lento no ombro, outro na curva da garganta, outro por baixo da orelha — e depois, só depois, subiu até à minha boca com uma paciência cruel que me fez gemer baixinho contra os seus lábios.

Beijou-me como quem termina uma dança que começou há muito.

As mãos dele encontraram-me o zíper das costas. Desceram-no devagar, milímetro a milímetro, e o vestido cedeu-me pelos ombros até me abraçar as ancas. Fiquei ali, no meio do estúdio deserto, com os seios nus, e ele afastou-se um passo só para me olhar.

— Que loucura — sussurrou.

Voltou. A boca desceu-me pelo peito e chupou-me o mamilo com uma força que me fez arquear as costas. Enterrei-lhe os dedos no cabelo. Puxei. Ele gemeu contra a minha pele e essa vibração desceu-me até ao ventre num arrepio que me fez tremer as pernas.

Levantou-me. Sentou-me em cima do piano vertical encostado à parede — o piano que ele nunca tocava, que servia só de decoração. Frio contra as minhas costas nuas. As minhas coxas caíram-lhe à volta da cintura como sempre tinham querido cair.

Empurrou-me o vestido para cima das ancas. Passou os dedos pela renda que me guardava, sem a tirar, apenas provocando, sentindo-me molhada através do tecido — e o sorriso pequeno que lhe apareceu na boca era o sorriso de quem tinha acabado de ganhar uma aposta antiga.

— Estás assim há quanto tempo? — perguntou-me contra a boca.

— Dez semanas.

Riu baixinho. Ajoelhou-se à minha frente.

E o que ele me fez em cima daquele piano com a boca — não sei se algum dia terei palavras para descrever. Puxou a renda para o lado e provou-me devagar, como quem prova algo que esperou muito tempo por provar, e eu tive de morder a mão para não gritar contra as paredes do estúdio.

A língua dele traçou-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos. Uma das mãos dele subiu-me pelo ventre, encontrou-me o seio, apertou. A outra manteve-me as coxas abertas contra a madeira do piano. Eu segurava-me à tampa fechada atrás de mim, com o cabelo caído para trás, gemendo sem já me importar com nada nem ninguém.

Senti a onda a subir. Ele sentiu. Afastou-se.

— Ainda não.

Levantou-se. Ergueu-me do piano com uma facilidade que me fez rir e gemer ao mesmo tempo, virou-me contra a parede, e as minhas mãos abertas na madeira fria. Sentiu-me atrás. Levantou-me o vestido. Desapertou-se.

E entrou em mim de uma só vez — fundo, seco, sem paciência nenhuma.

Gritei. O grito saiu-me sem aviso, ecoou pelo estúdio deserto, e ele não o abafou — deixou-me gritar, quase quis que eu gritasse, e moveu-se dentro de mim com aquele ritmo antigo do tango que ele me tinha ensinado nas primeiras aulas, mas agora feito de outra coisa, feito de fome e de meses de espera.

Uma mão dele agarrou-me o cabelo, puxou-me a cabeça para trás, e a boca dele mordeu-me a nuca enquanto se enterrava mais fundo. A outra mão desceu-me entre as coxas, encontrou-me outra vez, e esfregou-me no ritmo exato em que se movia.

Vim contra a parede tremendo inteira, apertando-me à volta dele em espasmos que me tiraram o ar. Ele veio logo a seguir — dentro de mim, com um gemido rouco enterrado no meu ombro, agarrando-me as ancas com uma força que me deixou marcas para uma semana inteira.

Ficámos ali. Ofegantes. Colados. A minha testa contra a madeira, a boca dele no meu ombro, o suor a arrefecer devagar entre nós.

Beijou-me a curva do ombro nu. Um beijo estranhamente doce para o que tinha acabado de fazer.

— Ficas para outra aula? — sussurrou.

Sorri contra a parede.

— Fico para outra vida.

Ele riu baixinho. Voltou a ligar o gira-discos. E o tango — finalmente — começou a tocar.





Cléia Fialho

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