Ele entrou no elevador no oitavo andar.
Eu já estava lá dentro — a descer sozinha, depois de mais uma reunião interminável, os saltos a matarem-me e o vestido preto colado ao corpo por causa do calor de Julho. Quando as portas se abriram e o vi, senti o estômago dar aquele salto ridículo que já não devia dar aos trinta e quatro anos.
Ele. O do quinto andar. O dos olhos escuros. O que trocava comigo sorrisos demasiado longos no lobby e que uma vez, na festa de Natal, me tinha sussurrado ao ouvido uma coisa que eu nunca contei a ninguém.
— *Boa noite* — disse ele, entrando.
— *Boa noite.*
As portas fecharam. Ele carregou no botão do rés-do-chão, embora eu já o tivesse carregado. Um gesto pequeno, distraído. Depois encostou-se à parede oposta e olhou para mim.
Olhou mesmo.
Descemos um andar. Dois. E foi então que o elevador estremeceu — um solavanco seco — e parou.
A luz piscou. Voltou. Mas o elevador não se moveu.
— *Deve ser um segundo* — disse ele.
Não foi um segundo. Foi um minuto. Depois dois. Carreguei no botão de emergência e uma voz metálica avisou que já tinham sido notificados, que aguardássemos, que era um problema geral do edifício.
Vinte minutos, disseram.
Olhei para ele. Ele olhou para mim. E eu senti aquilo — aquela coisa antiga, elétrica, que já andava entre nós há meses e que nenhum dos dois nunca tinha coragem de nomear.
— *Vinte minutos* — repetiu ele, devagar.
Sorri sem querer.
Deu um passo. Depois outro. Até estar tão perto que eu sentia o cheiro do perfume dele misturado com o suor leve do fim do dia. Não me tocou logo. Ficou ali, a olhar-me a boca, com aquela paciência cruel de quem sabe que já ganhou.
— *Sabes o que eu penso desde a festa de Natal?* — sussurrou.
— *Sei.*
— *E?*
Puxei-o pela gravata.
O beijo foi imediato, faminto, sem tempo para dúvidas — sete meses de olhares acumulados desabaram na minha boca de uma só vez. Ele empurrou-me contra a parede do elevador, o espelho frio nas minhas costas, e as suas mãos subiram-me pelas coxas por baixo do vestido com uma urgência que me fez perder o fôlego.
— *Só temos vinte minutos* — sussurrei-lhe ao ouvido.
— *Chega.*
Sorriu contra o meu pescoço e mordeu-me a pele por baixo da orelha. Gemi tão baixinho que quase não me ouvi — mas ele ouviu, e riu, e mordeu outra vez, mais fundo.
As mãos dele encontraram a renda por baixo do vestido. Puxou-a para o lado — não a tirou, só a afastou, como quem não tem tempo para gentilezas — e os dedos dele encontraram-me exactamente onde eu já o esperava desde o oitavo andar.
Fechei os olhos. A cabeça caiu para trás contra o espelho.
— *Estás molhada* — disse ele, quase acusador.
— *Estou assim desde a festa de Natal.*
Riu — um riso baixo, escuro — e ajoelhou-se.
Não. Não posso descrever tudo. Só posso dizer que a boca dele me encontrou por baixo daquele vestido preto de trabalho, no chão de um elevador parado entre o sexto e o quinto andar, e que eu tive de morder o pulso para não gritar quando a primeira onda me atravessou.
Ele levantou-se com um sorriso que ainda tinha o meu gosto.
Beijou-me — e eu provei-me na boca dele, salgada, obscena, deliciosa — e depois desapertou o cinto com uma pressa que nos fez rir aos dois.
Ergueu-me. As minhas pernas envolveram-lhe a cintura. O espelho gelado contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e quando entrou em mim eu tive de esconder o rosto no seu ombro para não gritar o nome dele no elevador de um prédio inteiro de escritórios.
Moveu-se rápido, fundo, sem paciência. Não havia tempo para paciência. As nossas respirações misturavam-se, o espelho embaciou-se atrás de mim, e senti-o tremer contra o meu ventre a cada estocada.
— *Vem comigo* — disse-lhe. — *Agora.*
Ele veio. Eu vim. Ao mesmo tempo, mordendo-lhe o ombro por cima da camisa, com um gemido abafado que ficou preso entre nós como um segredo.
Ficámos assim um instante. Ofegantes. A tremer.
E foi então que o elevador estremeceu outra vez — e começou a descer.
Tivemos exactamente noventa segundos para nos recompormos.
Quando as portas se abriram no rés-do-chão, saímos lado a lado, arranjados, sérios, como dois desconhecidos.
Ele virou-se para mim antes de sair.
— *Amanhã tenho uma reunião no oitavo* — disse. — *Às sete.*
Sorri.
— *Que coincidência.*
❦
Cléia Fialho

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