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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A BIBLIOTECA




Descobri-o na secção de poesia francesa.

Eram nove da noite de uma quinta-feira, a biblioteca da faculdade quase deserta, e eu procurava um Baudelaire que já não estava onde devia estar. Encontrei-o nas mãos dele.

— *Desculpa* — disse eu. — *Estava à procura desse livro há uma semana.*

Ele levantou os olhos. Escuros. Lentos. Do tipo que demora dois segundos a chegar aos teus e mais dois a sair.

— *Podemos partilhar.*

Sorri sem querer. Sentei-me à mesma mesa — a mais longe, ao fundo, entre duas estantes altas que faziam daquele canto um pequeno mundo à parte. Ele empurrou o livro para o meio da mesa. Encostei o joelho ao dele por acidente. Não o afastei.

Ele também não.
Lemos em silêncio uns minutos. Ou fingimos que líamos. Eu sabia que ele não estava a ler porque as pestanas dele não se mexiam, e ele sabia que eu não estava a ler porque a minha respiração tinha mudado.

Foi ele que quebrou primeiro.
Passou-me o livro pela mesa, com o dedo pousado num verso.

— *Lê isto em voz alta* — sussurrou. — *Baixinho.*

Olhei o verso. Era um dos mais obscenos do Baudelaire — daqueles que os manuais escolares saltam. Corei. Ele viu-me corar e sorriu devagar.
Li.

A minha voz saiu num fio, quase inaudível, e a boca dele entreabriu-se um bocadinho enquanto me ouvia. Quando cheguei ao fim do verso, ele levantou-se — sem pressa, sem barulho — e contornou a mesa.

Sentou-se ao meu lado. Coxa contra coxa.
— *Outra vez* — pediu.

Reli. Desta vez a mão dele pousou-me na perna, por cima da saia, e subiu devagar enquanto eu falava. Perdi a linha do verso. Ele riu baixinho.

— *Continua.*
Não consegui.

Virei-me para ele. E foi ele que me beijou primeiro — sem aviso, sem pergunta, com uma boca que sabia a café frio e a papel antigo. Beijou-me devagar, provando-me, como se ainda estivesse a decidir se me queria. Já tinha decidido. Nós os dois já tínhamos decidido.
A mão dele subiu pela minha coxa por baixo da saia. Encontrou o elástico das minhas meias. Passou por cima. Continuou. E quando os seus dedos me tocaram por cima da renda fina, teve de me tapar a boca com a outra mão porque o gemido que me saiu era demasiado alto para uma biblioteca.

— *Ssshhh* — sussurrou-me ao ouvido, com um sorriso que me arrepiou toda. — *Vão ouvir.*

Puxou a renda para o lado.
Os dedos dele encontraram-me — quentes, precisos, sem hesitar — e começaram a mover-se num ritmo lento que me fez enterrar as unhas na madeira da mesa. Fechei os olhos. Mordi o lábio. Ele beijou-me o pescoço, a orelha, e continuou a mover os dedos, cada vez mais fundo, cada vez mais certeiros, enquanto a outra mão me apertava o peito por cima da blusa.

— *Olha para mim* — sussurrou.

Abri os olhos. Ele olhava-me com uma concentração cruel — como quem lê um poema difícil e não quer perder uma sílaba. Os dedos dele encontraram o ponto exacto e eu senti todo o corpo apertar-se. Ele sentiu. Sorriu.

— *Ainda não* — disse. — *Aqui não.*
Tirou os dedos. Levou-os à boca. 
E provou-me à minha frente, devagar, com os olhos fechados, como quem prova um vinho raro.

Quase morri ali.
Puxou-me pela mão. Levou-me para trás da última estante — aquela que dá para a parede, onde nem as câmaras chegam. Empurrou-me contra as prateleiras. Um livro caiu. Nenhum de nós se importou.
Ergueu-me a saia até à cintura. Desapertou o cinto com uma mão só. E quando entrou em mim — de pé, com as minhas costas encostadas aos livros e as minhas pernas à volta da sua cintura — tive de morder-lhe o ombro por cima da camisa para não gritar.

Moveu-se devagar primeiro. Fundo. Cada estocada arrancava-me um pequeno gemido que ele engolia com a boca colada à minha. Depois mais rápido. Depois com uma urgência que fazia as prateleiras tremerem atrás de mim, e mais um livro caiu, e depois outro, e nenhum de nós parou.
Ele passou-me a mão entre os corpos, encontrou-me outra vez, e tocou-me ao mesmo ritmo em que se movia dentro de mim. Foi demais. Explodi contra a boca dele, tremendo inteira, apertada em torno dele — e ele veio logo a seguir, com um gemido rouco enterrado no meu pescoço, empurrando-me contra os livros uma última vez, fundo, tão fundo que eu vi estrelas por trás das pálpebras.

Ficámos ali um instante. A tremer. A respirar o cheiro a papel velho misturado com o nosso.

Ele encostou a testa à minha.
— *Achas que ouviram?* — sussurrou.

Ri baixinho.
— *De certeza que ouviram.*

Recompusemo-nos devagar. Ele apanhou os livros do chão. Eu ajeitei a saia. Saímos separados, com dois minutos de intervalo, como se nada tivesse acontecido.

Antes de sair, virou-se para mim junto à porta.
— *Amanhã* — disse — *secção de filosofia alemã. Nietzsche.*

Sorri.
— *Traz o Baudelaire.*




Cléia Fialho

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