O vapor sobe primeiro.
Antes de ti, antes de mim, antes de qualquer gesto, é o vapor que enche o quarto, embaça o espelho, apaga o mundo lá fora como quem fecha uma porta que ninguém mais vai abrir.
Estou na banheira.
De olhos fechados, a nuca apoiada na borda, um braço caído para fora como uma vírgula no meio de um poema que ainda não acabou de ser escrito.
A água cobre-me até o peito.
Um dos meus joelhos emerge, ilha molhada, brilhando à luz das velas, que acendi sem te contar.
Tu ficas à porta por um instante, apenas a olhar-me.
Porque há coisas que a pressa estraga, e eu, assim, sou uma dessas coisas.
Abro um olho.
Sorrio devagar, sem levantar a cabeça.
— Vens ou ficas aí a contemplar?
Despes-te em silêncio.
A camisa, as calças, tudo cai com o peso de quem sabe que já não vai precisar de armadura nenhuma nas próximas horas.
Entras na água.
Está quase quente demais, essa temperatura exata em que a pele hesita antes de se render.
E tu rendes-te, como sempre te rendes a qualquer coisa que venha de mim.
Sentas-te atrás de mim.
As minhas costas encontram o teu peito com um encaixe que já não pede permissão.
Suspiro, um suspiro pequeno, antigo, de quem finalmente chegou.
Pegas no sabão.
Fazes espuma nas mãos, devagar, e começas pelos meus ombros.
Deslizas.
O sabão desenha caminhos que os teus dedos apenas seguem: a curva do meu pescoço, a clavícula que sempre te pareceu
um verso mal terminado, o vale entre os meus seios, onde a água se demora como se também não quisesse sair dali.
Fecho os olhos outra vez.
A minha cabeça tomba para trás, encontra o teu ombro, e fico assim, molhada, inteira, acolhida sem que ninguém precise dizer palavra alguma.
As tuas mãos descem.
Contornam os meus seios sem pressa, sem destino, como quem passeia por um lugar que já conhece de cor, mas nunca se cansa de visitar.
Continuas a descer.
Barriga. Ventre.
A água tem uma cumplicidade estranha: esconde e revela ao mesmo tempo.
Solto um gemido baixo.
Um som abafado pela água, capaz de fazer a superfície estremecer em pequenos círculos.
— Assim... — sussurro,e é a única palavra de que preciso.
A tua mão sai da água, sobe, encontra a minha nuca e aproxima-me ainda mais, como se ainda fosse possível estarmos mais perto.
Beijas o meu pescoço molhado.
O meu corpo começa a estremecer por dentro.
Sinto esse arrepio subir, percorrer-me lentamente e instalar-se na respiração, como um pássaro prestes a levantar voo.
— Espera... — digo. E logo depois:
— Não esperes.
Rio baixinho, nesse riso rouco que mistura emoção e entrega.
Abraças-me com mais força.
A água transborda em pequenas ondas, molha o chão, apaga duas velas, e nenhum de nós percebe, porque, naquele instante, o mundo inteiro cabe no teu abraço.
Permaneço assim, encostada ao teu peito, ouvindo apenas a minha respiração encontrar novamente o ritmo das coisas simples.
Passamos muito tempo assim.
A água vai arrefecendo devagar, mas nenhum de nós quer sair.
Sair seria voltar ao mundo, e o mundo, agora, parece um lugar completamente desnecessário.
Por fim, sussurro junto ao teu braço:
— Ainda temos a cama.
E tu ris baixinho, molhado, feliz de uma felicidade serena, e respondes:
— Temos a cama. Temos o chão. Temos a noite inteira.
E o vapor, teimoso, continua a subir.
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