A porta fecha.
O trinco range como um segredo que ninguém deveria ouvir.
Não acendo a luz.
Deixo que a cidade, lá fora, faça o serviço: um néon vermelho pulsa na janela e pinta o teu ombrode sangue e de promessa.
Fico de costas por um instante.
Só o tempo de deixar cair a alça do vestido — um gesto pequeno, quase distraído, que faz o teu fôlego esquecer o caminho de casa.
Aproximo-me. Não te viras ainda.
Pouso a boca na tua nuca e sinto o teu corpo inteiro responder com um arrepio que desce, lento, até onde eu ainda não toquei.
— Devagar — dizes, sem virar o rosto.
E eu obedeço, porque a tua voz, nesse tom, é ordem e é súplica, é chave e é fechadura.
Desces os dedos pela minha espinha, vértebra a vértebra, como quem afina um instrumento antes do concerto.
O meu vestido cede, escorrega, faz um sussurro de tecido ao encontrar o chão.
— Vira-te. Viro-me.
E o néon vermelho atravessa a janela para se deitar entre os meus seios,
para descer pelo meu ventre, para acender essa sombra escura onde o meu nome ainda não foi dito, mas já está a ser pronunciado por cada centímetro da minha pele.
Empurras-me contra a parede.
(E eu, que julgava conduzir, como fui ingénua.)
A tua boca chega à minha com o peso exato de quem sabe o que quer.
Mordes-me o lábio como se assinasses um contrato em que a única cláusula é não parar.
As tuas mãos descem.
Encontram-me.
Sorris contra a minha boca, esse sorriso grande, de quem sabe que a outra já está perdida. E eu estou.
Estou perdida no cheiro do teu cabelo, no gosto salgado do teu pescoço, no som da tua respiração quando os meus dedos encontram
o lugar certo e eu inclino a cabeça para trás, oferecendo a garganta como um verso inacabado.
A cama fica a três passos. Não chegamos até ela.
O chão é frio. O tapete é áspero.
Nada disso importa quando me sento sobre ti e o néon vermelho desenha uma auréola.
Movo-me devagar.
Sabes que a pressa é para amantes pequenos.
Nós temos a paciência das mulheres que já venceram antes mesmo de começar.
E tu olhas-me.
Olhas-me enquanto ainda consigo sustentar o teu olhar, antes que o prazer me feche os olhos e me leve para longe, para esse lugar onde nem eu chego quando estou contigo.
Depois, muito depois, ficamos assim: eu, deitada sobre o teu peito, a respiração ainda à procura do compasso do mundo.
A cidade continua a pulsar na janela, vermelha, indiferente.
E tu dizes, baixinho, com a boca colada aos meus cabelos:
— Ainda não acabou.
E eu sorrio no escuro, porque sei que tens razão.
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