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sábado, 25 de julho de 2015

QUARTO 304




A porta fecha.
O trinco range como um segredo
que ninguém deveria ouvir.

Não acendo a luz.
Deixo que a cidade, lá fora, faça o serviço:
um néon vermelho pulsa na janela
e pinta o teu ombro
de sangue e de promessa.

Fico de costas por um instante.
Só o tempo de deixar cair
a alça do vestido —
um gesto pequeno, quase distraído,
que faz o teu fôlego esquecer o caminho de casa.

Aproximo-me.
Não te viras ainda.
Pouso a boca na tua nuca e sinto o teu corpo inteiro
responder com um arrepio que desce, lento,
até onde eu ainda não toquei.

— Devagar — dizes,
sem virar o rosto.

E eu obedeço, porque a tua voz, nesse tom,
é ordem e é súplica, é chave e é fechadura.

Desces os dedos pela minha espinha,
vértebra a vértebra,
como quem afina um instrumento
antes do concerto.
O meu vestido cede, escorrega,
faz um sussurro de tecido
ao encontrar o chão.

— Vira-te. Viro-me.

E o néon vermelho atravessa a janela
para se deitar entre os meus seios,
para descer pelo meu ventre,
para acender essa sombra escura
onde o meu nome ainda não foi dito,
mas já está a ser pronunciado
por cada centímetro da minha pele.

Empurras-me contra a parede.
(E eu, que julgava conduzir,
como fui ingénua.)

A tua boca chega à minha
com o peso exato de quem sabe o que quer.
Mordes-me o lábio como se assinasses um contrato
em que a única cláusula é não parar.

As tuas mãos descem.
Encontram-me.
Sorris contra a minha boca,
esse sorriso grande, de quem sabe
que a outra já está perdida.

E eu estou.

Estou perdida no cheiro do teu cabelo,
no gosto salgado do teu pescoço,
no som da tua respiração
quando os meus dedos encontram
o lugar certo e eu inclino a cabeça para trás,
oferecendo a garganta
como um verso inacabado.

A cama fica a três passos.
Não chegamos até ela.

O chão é frio. O tapete é áspero.
Nada disso importa quando me sento sobre ti
e o néon vermelho desenha uma auréola.

Movo-me devagar.
Sabes que a pressa é para amantes pequenos.
Nós temos a paciência das mulheres
que já venceram antes mesmo de começar.

E tu olhas-me.
Olhas-me enquanto ainda consigo sustentar o teu olhar,
antes que o prazer me feche os olhos
e me leve para longe,
para esse lugar onde nem eu chego
quando estou contigo.

Depois, muito depois,
ficamos assim:
eu, deitada sobre o teu peito,
a respiração ainda à procura
do compasso do mundo.

A cidade continua a pulsar
na janela, vermelha, indiferente.

E tu dizes, baixinho,
com a boca colada aos meus cabelos:

— Ainda não acabou.

E eu sorrio no escuro,
porque sei que tens razão.




Cléia Fialho

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