O olhar encontra o papel,
e o que era traço vira febre.
Meus dedos, impacientes,
desabotoam o silêncio da roupa
toca o que a mão ainda não alcança.
Sinto o peso da ausência
entre o meu corpo e o vazio do sofá.
A embriaguez —
não do álcool, mas do desejo —
me faz fantasiar o encontro:
— a pele na pele —
a curva do rosto onde perco o prumo,
o gosto de ti, que invento no ar.
O lápis escorrega,
o real se mistura ao delírio.
Limão e álcool pairam no ambiente,
trazendo-me de volta ao exercício:
só te possuo na ponta do grafite.
Contorno o papel,
esculpo tua boca em um suspiro,
busco tua forma na tela estática.
Tua pele, que imagino, não tem toque;
teu nome, que sussurro, não tem resposta.
Estou aqui, desenhando um abismo
que meu querer chama de você.
❦
Cléia Fialho

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