Vou dizer-te uma coisa que nunca te disse.
Nas reuniões, quando estás sentado do outro lado da mesa a falar de números e prazos, eu não te ouço. Não uma palavra. Estou a olhar para as tuas mãos — para aqueles dedos longos que sabem exactamente onde tocar-me — e a lembrar-me do que fizeste com eles na noite anterior.
E depois olho para a tua boca a mexer-se, e lembro-me de onde essa boca esteve, e tenho de cruzar as pernas por baixo da mesa porque o meu corpo trai-me.
Uma vez — não sabes disto — vim na cadeira, sem me tocar, só de te ouvir falar. Foi na reunião de terça-feira. Estavas a explicar não sei o quê, e a tua voz baixou um bocadinho — aquele tom que usas comigo quando estamos os dois nus — e o meu corpo respondeu como se me tivesses chamado. Fingi que estava a tomar notas. Estava a tremer.
Quando sais da sala, os outros perguntam-me se estou bem. Eu sorrio. Digo que sim. Mas por baixo do vestido, eu sou uma coisa molhada e desesperada que só quer que tu voltes, me empurres para dentro de uma sala qualquer, me feches contra a parede e me faças esquecer o meu próprio nome.
Confesso mais...
Quando tomo banho, penso em ti. Sempre. Deixo a água escorrer por sítios onde a tua boca já esteve e finjo que és tu. Ponho a mão onde tu pões a tua e chamo-te baixinho no vapor.
Já vim três vezes assim, sozinha, só a pensar em ti — e depois saio do chuveiro envergonhada como se me tivesses apanhado.
Guardo uma das tuas t-shirts no fundo da gaveta. Aquela que ficou aqui há duas semanas. Não a lavei. Cheira a ti, e nas noites em que não vens, é ela que uso — vestida sem nada por baixo — e enterro o rosto na gola e finjo que és tu a abraçar-me por trás.
Às vezes durmo com ela.
Às vezes faço mais do que dormir.
Tenho pensamentos contigo que uma mulher decente não devia ter. Coisas que nunca ousei dizer em voz alta. Penso na tua mão a apertar-me o pescoço com gentileza enquanto me entras — sem magoar, só o suficiente para eu saber que sou tua.
Penso em ficar de joelhos à tua frente na tua cozinha enquanto tu tentas continuar a preparar o jantar como se não fosse nada. Penso em ser tua contra o vidro embaciado de uma janela num sítio onde nos possam ver. Penso em pedires-me coisas que uma outra mulher recusaria — e em eu dizer que sim, dizer sim ao teu ouvido com a voz mais mansa do mundo.
Já espiei o teu telemóvel. Não por ciúme. Por fome. Queria ver o que dizes de mim quando não estou — se falas de mim aos teus amigos, se contas o que fazes comigo, se guardas fotos. Não encontrei nada.
E fiquei quase desiliuda — porque uma parte de mim queria descobrir-te obsceno também, queria saber que também pensas em mim nas reuniões, que também vens no chuveiro a pensar em mim, que também guardas peças minhas em gavetas.
Tenho uma fotografia tua no telemóvel — daquela vez em que adormeceste na minha cama, de barriga para baixo, com o lençol a cobrir-te só até à cintura. Não sabes que a tirei. E olho para ela mais vezes do que devia. Nos elevadores. Nos táxis.
Sob a mesa numa reunião em que estejas a três cadeiras de mim.
E se um dia leres isto, meu amor — não te espantes.
Não fujas.
Vem cá.
Vem provar cada uma destas confissões, uma por uma, sem pressa. Vem descobrir todas as mulheres que eu sou quando penso em ti — a decente e a outra, a que te olha nos olhos no jantar e a que te olha nos olhos quando me tens de joelhos.
Sou as duas.
E as duas são tuas.
Sempre foram.
❦
Cléia Fialho


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