TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





sexta-feira, 31 de julho de 2015

SUSSURROS QUE INCENDEIAM A MADRUGADA



Despertam sussurros a sonhar,
como se o mundo ao redor parasse,
deixando apenas o nosso amor a pulsar.

O desejo delicado de um toque,
um olhar que explode em mil estrelas,
romance embriagado de manhãs sem fim.

Teus lábios passeiam em calma lenta,
acendendo o silêncio do meu peito.
Teu perfume veste a madrugada,
e cada instante encontra o seu leito.

Nossos corpos conversam sem palavras,
na linguagem secreta da paixão.
O tempo se dissolve entre carícias,
enquanto o desejo guia o coração.

A lua contempla a entrega serena,
bordando prata sobre a nossa pele.
E a noite, cúmplice dos sentimentos,
guarda em seu véu o amor que nos envolve.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 30 de julho de 2015

quarta-feira, 29 de julho de 2015

SINOPSE DA ALMA EM CHAMA



Nas brumas suaves do desejo,  
tato em pele,  
suspiros e risos,  
um jogo de olhares,  
onde o tempo se despedaça,  
dançando entre nós,  
como sombras ao luar.  

Teus lábios contam segredos,  
palavras sussurradas,  
neste universo de encantos.  
A cada toque, uma história,  
de luz e sombra,  
desnudando a alma,  
pintando o ar de cores vibrantes.  

Os corpos em harmonia,  
uma sinfonia sem notas,  
nós que nos entregamos,  
trocando promessas,  
onde a carne e o espírito  
se encontram,  
e o sutil se torna eterno.  

Entre sussurros de brisa  
e toques de vontade,  
abrimos portas para o infinito,  
onde tudo é possível,  
a liberdade do amor,  
refletida em cada nuance  
do prazer que nos envolve.  

Aqui, neste instante,  
a vida se transforma,  
cada respiração, um verso  
na poesia do corpo,  
um hino à beleza,  
donde cada gesto é arte  
e a paixão,  
um delicado fio de luz.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 27 de julho de 2015

O ELEVADOR



Ele entrou no elevador no oitavo andar.

Eu já estava lá dentro — a descer sozinha, depois de mais uma reunião interminável, os saltos a matarem-me e o vestido preto colado ao corpo por causa do calor de Julho. Quando as portas se abriram e o vi, senti o estômago dar aquele salto ridículo que já não devia dar aos trinta e quatro anos.
Ele. O do quinto andar. O dos olhos escuros. O que trocava comigo sorrisos demasiado longos no lobby e que uma vez, na festa de Natal, me tinha sussurrado ao ouvido uma coisa que eu nunca contei a ninguém.

— *Boa noite* — disse ele, entrando.
— *Boa noite.*

As portas fecharam. Ele carregou no botão do rés-do-chão, embora eu já o tivesse carregado. Um gesto pequeno, distraído. Depois encostou-se à parede oposta e olhou para mim.

Olhou mesmo.
Descemos um andar. Dois. E foi então que o elevador estremeceu — um solavanco seco — e parou.
A luz piscou. Voltou. Mas o elevador não se moveu.

— *Deve ser um segundo* — disse ele.

Não foi um segundo. Foi um minuto. Depois dois. Carreguei no botão de emergência e uma voz metálica avisou que já tinham sido notificados, que aguardássemos, que era um problema geral do edifício.
Vinte minutos, disseram.

Olhei para ele. Ele olhou para mim. E eu senti aquilo — aquela coisa antiga, elétrica, que já andava entre nós há meses e que nenhum dos dois nunca tinha coragem de nomear.

— *Vinte minutos* — repetiu ele, devagar.

Sorri sem querer.

Deu um passo. Depois outro. Até estar tão perto que eu sentia o cheiro do perfume dele misturado com o suor leve do fim do dia. Não me tocou logo. Ficou ali, a olhar-me a boca, com aquela paciência cruel de quem sabe que já ganhou.

— *Sabes o que eu penso desde a festa de Natal?* — sussurrou.
— *Sei.*
— *E?*
Puxei-o pela gravata.

O beijo foi imediato, faminto, sem tempo para dúvidas — sete meses de olhares acumulados desabaram na minha boca de uma só vez. Ele empurrou-me contra a parede do elevador, o espelho frio nas minhas costas, e as suas mãos subiram-me pelas coxas por baixo do vestido com uma urgência que me fez perder o fôlego.

— *Só temos vinte minutos* — sussurrei-lhe ao ouvido.
— *Chega.*

Sorriu contra o meu pescoço e mordeu-me a pele por baixo da orelha. Gemi tão baixinho que quase não me ouvi — mas ele ouviu, e riu, e mordeu outra vez, mais fundo.
As mãos dele encontraram a renda por baixo do vestido. Puxou-a para o lado — não a tirou, só a afastou, como quem não tem tempo para gentilezas — e os dedos dele encontraram-me exactamente onde eu já o esperava desde o oitavo andar.
Fechei os olhos. A cabeça caiu para trás contra o espelho.

— *Estás molhada* — disse ele, quase acusador.
— *Estou assim desde a festa de Natal.*
Riu — um riso baixo, escuro — e ajoelhou-se.

Não. Não posso descrever tudo. Só posso dizer que a boca dele me encontrou por baixo daquele vestido preto de trabalho, no chão de um elevador parado entre o sexto e o quinto andar, e que eu tive de morder o pulso para não gritar quando a primeira onda me atravessou.
Ele levantou-se com um sorriso que ainda tinha o meu gosto.
Beijou-me — e eu provei-me na boca dele, salgada, obscena, deliciosa — e depois desapertou o cinto com uma pressa que nos fez rir aos dois.

Ergueu-me. As minhas pernas envolveram-lhe a cintura. O espelho gelado contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e quando entrou em mim eu tive de esconder o rosto no seu ombro para não gritar o nome dele no elevador de um prédio inteiro de escritórios.
Moveu-se rápido, fundo, sem paciência. Não havia tempo para paciência. As nossas respirações misturavam-se, o espelho embaciou-se atrás de mim, e senti-o tremer contra o meu ventre a cada estocada.

— *Vem comigo* — disse-lhe. — *Agora.*

Ele veio. Eu vim. Ao mesmo tempo, mordendo-lhe o ombro por cima da camisa, com um gemido abafado que ficou preso entre nós como um segredo.
Ficámos assim um instante. Ofegantes. A tremer.
E foi então que o elevador estremeceu outra vez — e começou a descer.
Tivemos exactamente noventa segundos para nos recompormos.
Quando as portas se abriram no rés-do-chão, saímos lado a lado, arranjados, sérios, como dois desconhecidos.

Ele virou-se para mim antes de sair.
— *Amanhã tenho uma reunião no oitavo* — disse. — *Às sete.*

Sorri.
— *Que coincidência.*



  Cléia Fialho

domingo, 26 de julho de 2015

SUSSURROS NA PENUMBRA



No toque suave da brisa,  
o perfume das flores,  
um convite ao desejo,  
a dança dos corpos,  
sussurros na penumbra.  

Olhares que se encontram,  
caminhos entrelaçados,  
corações pulsando forte,  
a luz suave da tarde,  
o calor do momento.  

Lá fora, o mundo gira,  
mas aqui, somos só nós,  
perdidos em instantes,  
onde o tempo se desfaz,  
e o erotismo é arte.  

Despertar de sensações,  
texturas na pele,  
um universo secreto  
onde tudo é permitido,  
e cada beijo é uma promessa.  

Navegamos em mares  
de sonhos e esperanças,  
onde o desejo é luz,  
e o amor, uma paisagem  
desenhada em nuances.  

Na suavidade do toque,  
na entrega sincera,  
um poema que se escribe  
com as pétalas do desejo,  
numa manhã de verão.




  Cléia Fialho

sábado, 25 de julho de 2015

QUARTO 304



A porta fecha.
O trinco range como um segredo que ninguém deveria ouvir.

Não acendo a luz.
Deixo que a cidade, lá fora, faça o serviço: um néon vermelho pulsa na janela e pinta o teu ombrode sangue e de promessa.

Fico de costas por um instante.
Só o tempo de deixar cair a alça do vestido — um gesto pequeno, quase distraído, que faz o teu fôlego esquecer o caminho de casa.

Aproximo-me. Não te viras ainda.
Pouso a boca na tua nuca e sinto o teu corpo inteiro responder com um arrepio que desce, lento, até onde eu ainda não toquei.

— Devagar — dizes, sem virar o rosto.

E eu obedeço, porque a tua voz, nesse tom, é ordem e é súplica, é chave e é fechadura.

Desces os dedos pela minha espinha, vértebra a vértebra, como quem afina um instrumento antes do concerto.
O meu vestido cede, escorrega, faz um sussurro de tecido ao encontrar o chão.

— Vira-te. Viro-me.

E o néon vermelho atravessa a janela para se deitar entre os meus seios,
para descer pelo meu ventre, para acender essa sombra escura onde o meu nome ainda não foi dito, mas já está a ser pronunciado por cada centímetro da minha pele.

Empurras-me contra a parede.
(E eu, que julgava conduzir, como fui ingénua.)

A tua boca chega à minha com o peso exato de quem sabe o que quer.
Mordes-me o lábio como se assinasses um contrato em que a única cláusula é não parar.

As tuas mãos descem.
Encontram-me.
Sorris contra a minha boca, esse sorriso grande, de quem sabe que a outra já está perdida. E eu estou.

Estou perdida no cheiro do teu cabelo, no gosto salgado do teu pescoço, no som da tua respiração quando os meus dedos encontram
o lugar certo e eu inclino a cabeça para trás, oferecendo a garganta como um verso inacabado.

A cama fica a três passos. Não chegamos até ela.

O chão é frio. O tapete é áspero.
Nada disso importa quando me sento sobre ti e o néon vermelho desenha uma auréola.

Movo-me devagar.
Sabes que a pressa é para amantes pequenos.
Nós temos a paciência das mulheres que já venceram antes mesmo de começar.

E tu olhas-me.
Olhas-me enquanto ainda consigo sustentar o teu olhar, antes que o prazer me feche os olhos e me leve para longe, para esse lugar onde nem eu chego quando estou contigo.

Depois, muito depois, ficamos assim: eu, deitada sobre o teu peito, a respiração ainda à procura do compasso do mundo.

A cidade continua a pulsar na janela, vermelha, indiferente.

E tu dizes, baixinho, com a boca colada aos meus cabelos:

— Ainda não acabou.

E eu sorrio no escuro, porque sei que tens razão.





  Cléia Fialho

sexta-feira, 24 de julho de 2015

CONFISSÃO IMPURA



Confesso: penso em ti
nas horas mais impróprias.
No meio da reunião,
na fila do café,
enquanto o mundo finge
que existe algo mais urgente
que o teu zíper entreaberto
na minha memória.

Penso na tua língua.
Penso nos teus dedos.
Penso naquele gesto
— tu sabes qual —
em que reviras os olhos
e o pescoço se rende
e o teu corpo diz *sim*
antes da tua voz.

Sou uma mulher decente
em público.
Mas contigo, no escuro,
sou tudo o que a moral condena:
sou boca, sou garra, sou fome,
sou o teu nome dito baixo
como quem diz um palavrão.

E se isso é lascívia,
que seja.
Que me condenem os santos,
que me expulsem os anjos —
prefiro o teu inferno morno
ao céu de qualquer outro.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A MORDIDA QUE ABRE O ABISMO



Não são palavras que traçam o destino
É o pulsar que nos faz avançar juntos
Deixando para trás o mundo e seus assuntos
Nesse abraço que sufoca e define o limite

Tua mão desce lenta pelo meu peito nu
Acordando cada fibra adormecida e tensa
O suor fala mais que qualquer discurso vazio
Enquanto o lençol se enrola
 em nossas pernas molhadas de prazer

A língua desenha mapas proibidos e quentes
Mordendo o limite entre o gozo e o grito profundo
Não há destino fora dessa cama suada e escura
Onde o tempo morre e o corpo 
resucita em espasmos selvagens

Vamos deixando tudo para trás e fora
Cada beijo um pacto de fogo e demanda
Esse abraço profundo e demasiado fino
Que nos devora até o último suspiro 
rouco e roubado de vida

Minha boca encontra teu pescoço arqueado
Mordendo a carne que pulsa e implora
Não há mais fim que nos separe.




  Cléia Fialho

quarta-feira, 22 de julho de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

MEU VÍCIO




Chamas-me com os olhos
antes mesmo de me chamares com a boca.
E eu vou —
vou como quem sabe que vai cair

segunda-feira, 20 de julho de 2015

ENTRE JOGOS E LABIRINTOS



Em cada toque, um sussurro,   
fragrância de pele fresca,   
o calor de um olhar ousado,   
a dança das mãos, suave,   
como folhas ao vento na primavera.   

Os sentidos se entrelaçam,   
sorrisos que desenham curvas,   
lábios que se encontram na brisa,   
cada palavra, um convite,   
cada gesto, um segredo.   

E o desejo, pulsante como um coração,   
encontra espaço entre os suspiros,   
explorando o mapa da alma   
onde o medo se dissolve,   
onde a coragem se revela.   

A poesia desenha texturas,   
um abraço que não se apressa,   
o ritmo da noite é nosso,   
cada verso, um espaço sagrado,   
onde a intimidade se expressa.   

Assim, entre jogos e labirintos,   
os sentidos despertam, nus,   
encontrando na ousadia   
a essência do amor,   
a pura arte de ser.




  Cléia Fialho

domingo, 19 de julho de 2015

A BANHEIRA



O vapor sobe primeiro.

Antes de ti, antes de mim, antes de qualquer gesto, é o vapor que enche o quarto, embaça o espelho, apaga o mundo lá fora como quem fecha uma porta que ninguém mais vai abrir.

Estou na banheira.
De olhos fechados, a nuca apoiada na borda, um braço caído para fora como uma vírgula no meio de um poema que ainda não acabou de ser escrito.

A água cobre-me até o peito.
Um dos meus joelhos emerge, ilha molhada, brilhando à luz das velas, que acendi sem te contar.

Tu ficas à porta por um instante, apenas a olhar-me.
Porque há coisas que a pressa estraga, e eu, assim, sou uma dessas coisas.

Abro um olho.
Sorrio devagar, sem levantar a cabeça.

— Vens ou ficas aí a contemplar?

Despes-te em silêncio.
A camisa, as calças, tudo cai com o peso de quem sabe que já não vai precisar de armadura nenhuma nas próximas horas.

Entras na água.
Está quase quente demais, essa temperatura exata em que a pele hesita antes de se render.
E tu rendes-te, como sempre te rendes a qualquer coisa que venha de mim.

Sentas-te atrás de mim.
As minhas costas encontram o teu peito com um encaixe que já não pede permissão.
Suspiro, um suspiro pequeno, antigo, de quem finalmente chegou.

Pegas no sabão.
Fazes espuma nas mãos, devagar, e começas pelos meus ombros.

Deslizas.
O sabão desenha caminhos que os teus dedos apenas seguem: a curva do meu pescoço, a clavícula que sempre te pareceu
um verso mal terminado, o vale entre os meus seios, onde a água se demora como se também não quisesse sair dali.

Fecho os olhos outra vez.
A minha cabeça tomba para trás, encontra o teu ombro, e fico assim, molhada, inteira, acolhida sem que ninguém precise dizer palavra alguma.

As tuas mãos descem.
Contornam os meus seios sem pressa, sem destino, como quem passeia por um lugar que já conhece de cor, mas nunca se cansa de visitar.

Continuas a descer.
Barriga. Ventre.
A água tem uma cumplicidade estranha: esconde e revela ao mesmo tempo.

Solto um gemido baixo.
Um som abafado pela água, capaz de fazer a superfície estremecer em pequenos círculos.

— Assim... — sussurro,e é a única palavra de que preciso.

A tua mão sai da água, sobe, encontra a minha nuca e aproxima-me ainda mais, como se ainda fosse possível estarmos mais perto.

Beijas o meu pescoço molhado.
O meu corpo começa a estremecer por dentro.
Sinto esse arrepio subir, percorrer-me lentamente e instalar-se na respiração, como um pássaro prestes a levantar voo.

— Espera... — digo. E logo depois:
— Não esperes.

Rio baixinho, nesse riso rouco que mistura emoção e entrega.
Abraças-me com mais força.
A água transborda em pequenas ondas, molha o chão, apaga duas velas, e nenhum de nós percebe, porque, naquele instante, o mundo inteiro cabe no teu abraço.

Permaneço assim, encostada ao teu peito, ouvindo apenas a minha respiração encontrar novamente o ritmo das coisas simples.

Passamos muito tempo assim.
A água vai arrefecendo devagar, mas nenhum de nós quer sair.
Sair seria voltar ao mundo, e o mundo, agora, parece um lugar completamente desnecessário.

Por fim, sussurro junto ao teu braço:

— Ainda temos a cama.

E tu ris baixinho, molhado, feliz de uma felicidade serena, e respondes:

— Temos a cama. Temos o chão. Temos a noite inteira.

E o vapor, teimoso, continua a subir.




  Cléia Fialho

sábado, 18 de julho de 2015

SEGREDO DO TOQUE



Luz que dança em pele exposta no segredo do toque suave,  
o sopro do desejo aflora,  
como brisa que acaricia o amanhecer.  

Sussurros de corpos entrelaçados,  
na penumbra onde os sentidos despertam em sinfonia mística,  
cada olhar um convite, 
cada gesto,  
um poema escrito em murmúrios.  

Luxúria enfeita os sonhos,  
como pétalas em flor,  
delicadas e ardentes,  
cada perfume é um testemunho do que arde em silêncio.  

Libido, 
que alimenta a chama da paixão fervente,  
teu poder é um abismo,  
onde a razão se dissolve na eternidade,  
e o instante se faz infinito.  

Em cada toque, a poesia se revela,  
nas danças que a noite sussurra,  
sensualidade é um verso,  
a vida uma estrofe,  
composta de anseios e suspiros.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 17 de julho de 2015

AULA PARTICULAR

 



Cheguei atrasada. De propósito.

Sabia que ele estava a arrumar o estúdio — luzes baixas, o parquet a cheirar a cera, o cheiro dele já pousado no ar antes mesmo de me ver entrar. Dez semanas de aulas de tango. Dez semanas a fingir que era só isto: uma mulher a aprender a dançar.

Mas hoje era a última aula. E hoje eu não vinha para dançar.

— Chegaste tarde — disse ele, sem levantar os olhos, enrolando o cabo do gira-discos.

— Cheguei quando queria chegar.

Levantou o olhar. E aquele olhar dele — escuro, lento, o que sempre me atravessava de uma forma que a música nunca me atravessou — pousou-se-me no vestido preto colado. Deteve-se um segundo a mais no decote. Outro segundo a mais nas coxas.

— Vieste com um vestido para dançar tango?

— Vim com um vestido para o que quiseres.

Não riu. Não sorriu. Só se ergueu devagar, atravessou o estúdio, e apagou uma das duas lâmpadas. O quarto ficou em penumbra âmbar, quente, apertada.

Aproximou-se. Parou a um palmo.

— Sabes que se te tocar agora não é aula.

— Sei.

— E queres.

— Já sabes que quero. Desde a segunda aula que sabes.

Puxou-me pela cintura com uma mão só — aquele gesto seco de tango, mas sem música desta vez — e encostou-me a ele. Senti-o inteiro. Senti que também ele já estava a três semanas de não conseguir mais fingir.

A boca dele desceu-me pelo pescoço antes de tocar a minha. Um beijo lento no ombro, outro na curva da garganta, outro por baixo da orelha — e depois, só depois, subiu até à minha boca com uma paciência cruel que me fez gemer baixinho contra os seus lábios.

Beijou-me como quem termina uma dança que começou há muito.

As mãos dele encontraram-me o zíper das costas. Desceram-no devagar, milímetro a milímetro, e o vestido cedeu-me pelos ombros até me abraçar as ancas. Fiquei ali, no meio do estúdio deserto, com os seios nus, e ele afastou-se um passo só para me olhar.

— Que loucura — sussurrou.

Voltou. A boca desceu-me pelo peito e chupou-me o mamilo com uma força que me fez arquear as costas. Enterrei-lhe os dedos no cabelo. Puxei. Ele gemeu contra a minha pele e essa vibração desceu-me até ao ventre num arrepio que me fez tremer as pernas.

Levantou-me. Sentou-me em cima do piano vertical encostado à parede — o piano que ele nunca tocava, que servia só de decoração. Frio contra as minhas costas nuas. As minhas coxas caíram-lhe à volta da cintura como sempre tinham querido cair.

Empurrou-me o vestido para cima das ancas. Passou os dedos pela renda que me guardava, sem a tirar, apenas provocando, sentindo-me molhada através do tecido — e o sorriso pequeno que lhe apareceu na boca era o sorriso de quem tinha acabado de ganhar uma aposta antiga.

— Estás assim há quanto tempo? — perguntou-me contra a boca.

— Dez semanas.

Riu baixinho. Ajoelhou-se à minha frente.

E o que ele me fez em cima daquele piano com a boca — não sei se algum dia terei palavras para descrever. Puxou a renda para o lado e provou-me devagar, como quem prova algo que esperou muito tempo por provar, e eu tive de morder a mão para não gritar contra as paredes do estúdio.

A língua dele traçou-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos. Uma das mãos dele subiu-me pelo ventre, encontrou-me o seio, apertou. A outra manteve-me as coxas abertas contra a madeira do piano. Eu segurava-me à tampa fechada atrás de mim, com o cabelo caído para trás, gemendo sem já me importar com nada nem ninguém.

Senti a onda a subir. Ele sentiu. Afastou-se.

— Ainda não.

Levantou-se. Ergueu-me do piano com uma facilidade que me fez rir e gemer ao mesmo tempo, virou-me contra a parede, e as minhas mãos abertas na madeira fria. Sentiu-me atrás. Levantou-me o vestido. Desapertou-se.

E entrou em mim de uma só vez — fundo, seco, sem paciência nenhuma.

Gritei. O grito saiu-me sem aviso, ecoou pelo estúdio deserto, e ele não o abafou — deixou-me gritar, quase quis que eu gritasse, e moveu-se dentro de mim com aquele ritmo antigo do tango que ele me tinha ensinado nas primeiras aulas, mas agora feito de outra coisa, feito de fome e de meses de espera.

Uma mão dele agarrou-me o cabelo, puxou-me a cabeça para trás, e a boca dele mordeu-me a nuca enquanto se enterrava mais fundo. A outra mão desceu-me entre as coxas, encontrou-me outra vez, e esfregou-me no ritmo exato em que se movia.

Vim contra a parede tremendo inteira, apertando-me à volta dele em espasmos que me tiraram o ar. Ele veio logo a seguir — dentro de mim, com um gemido rouco enterrado no meu ombro, agarrando-me as ancas com uma força que me deixou marcas para uma semana inteira.

Ficámos ali. Ofegantes. Colados. A minha testa contra a madeira, a boca dele no meu ombro, o suor a arrefecer devagar entre nós.

Beijou-me a curva do ombro nu. Um beijo estranhamente doce para o que tinha acabado de fazer.

— Ficas para outra aula? — sussurrou.

Sorri contra a parede.

— Fico para outra vida.

Ele riu baixinho. Voltou a ligar o gira-discos. E o tango — finalmente — começou a tocar.



  Cléia Fialho