TOCA DA LEOA

Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





terça-feira, 29 de setembro de 2015

DEIXA O TEMPO SER APENAS O QUE É




O sol abre uma fresta na janela 
o café esfria enquanto a luz dança 
no chão da sala onde a vida se espalha 
sem pressa de chegar a lugar algum. 

domingo, 27 de setembro de 2015

A SEMENTE DA MENTE




A mão repousa sobre a folha branca 
O mundo espera o gesto da vontade 
A tinta corre como um rio que manca 
Em busca da profunda claridade.

sábado, 26 de setembro de 2015

FOME DE TI



Não é amor — é fome.
Fome antiga, animal,
que me sobe pelas coxas
quando escuto teu nome.

Quero-te assim: sem pressa,
sem promessa, sem porquê —
quero a curva da tua nuca
mordida contra a parede,
quero o gemido rouco
que só eu sei arrancar,
quero a tua sede na minha,
água em água a se derramar.

Despe-me devagar,
como quem lê um segredo,
letra por letra, botão
por botão, medo por medo.
Deixa a luz acesa —
quero ver o teu rosto
no exato instante
em que o corpo te trai
e te entregas, inteiro,
ao que a boca calou.

Depois, quando o silêncio
descer sobre nós dois
como um lençol molhado,
não digas nada. — Fica.
Fica com a mão pousada
onde o desejo ainda pulsa,
onde a pele lembra
que foi tua — e será,
todas as vezes
em que a noite pedir.




  Cléia Fialho

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

FAÍSCAS PERDIDAS NA IMENSIDÃO




O silêncio viaja entre as luzes antigas
desenhando caminhos no tecido do escuro
onde o tempo esquece de contar as horas.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

É UM ESTADO DE ESPÍRITO




O sol entra sem pedir licença pela janela 
trazendo o cheiro de café fresco e luz nova 
enquanto o silêncio da casa canta baixo 
uma melodia que eu não sabia conhecer. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

LAÇO QUE NÃO APERTA




A amizade não precisa de anúncio 
ela mora no silêncio que compreende 
na hora em que o café esfria 
e a conversa se estende sem pressa. 

domingo, 20 de setembro de 2015

sábado, 19 de setembro de 2015

À SOMBRA DOS SONHOS




Um vento sussurra entre as folhas,  
a luz ao amanhecer toca o chão,  
recordações dançam na brisa,  
como risos esquecidos ao sol.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O QUE PENSO DE TI QUANDO NINGUÉM VÊ



Vou dizer-te uma coisa que nunca te disse.

Nas reuniões, quando estás sentado do outro lado da mesa a falar de números e prazos, eu não te ouço. Não uma palavra. Estou a olhar para as tuas mãos — para aqueles dedos longos que sabem exactamente onde tocar-me — e a lembrar-me do que fizeste com eles na noite anterior. 

E depois olho para a tua boca a mexer-se, e lembro-me de onde essa boca esteve, e tenho de cruzar as pernas por baixo da mesa porque o meu corpo trai-me.

Uma vez — não sabes disto — vim na cadeira, sem me tocar, só de te ouvir falar. Foi na reunião de terça-feira. Estavas a explicar não sei o quê, e a tua voz baixou um bocadinho — aquele tom que usas comigo quando estamos os dois nus — e o meu corpo respondeu como se me tivesses chamado. Fingi que estava a tomar notas. Estava a tremer.

Quando sais da sala, os outros perguntam-me se estou bem. Eu sorrio. Digo que sim. Mas por baixo do vestido, eu sou uma coisa molhada e desesperada que só quer que tu voltes, me empurres para dentro de uma sala qualquer, me feches contra a parede e me faças esquecer o meu próprio nome.

Confesso mais...

Quando tomo banho, penso em ti. Sempre. Deixo a água escorrer por sítios onde a tua boca já esteve e finjo que és tu. Ponho a mão onde tu pões a tua e chamo-te baixinho no vapor. 
Já vim três vezes assim, sozinha, só a pensar em ti — e depois saio do chuveiro envergonhada como se me tivesses apanhado.

Guardo uma das tuas t-shirts no fundo da gaveta. Aquela que ficou aqui há duas semanas. Não a lavei. Cheira a ti, e nas noites em que não vens, é ela que uso — vestida sem nada por baixo — e enterro o rosto na gola e finjo que és tu a abraçar-me por trás. 
Às vezes durmo com ela. 
Às vezes faço mais do que dormir.

Tenho pensamentos contigo que uma mulher decente não devia ter. Coisas que nunca ousei dizer em voz alta. Penso na tua mão a apertar-me o pescoço com gentileza enquanto me entras — sem magoar, só o suficiente para eu saber que sou tua. 

Penso em ficar de joelhos à tua frente na tua cozinha enquanto tu tentas continuar a preparar o jantar como se não fosse nada. Penso em ser tua contra o vidro embaciado de uma janela num sítio onde nos possam ver. Penso em pedires-me coisas que uma outra mulher recusaria — e em eu dizer que sim, dizer sim ao teu ouvido com a voz mais mansa do mundo.

Já espiei o teu telemóvel. Não por ciúme. Por fome. Queria ver o que dizes de mim quando não estou — se falas de mim aos teus amigos, se contas o que fazes comigo, se guardas fotos. Não encontrei nada. 
E fiquei quase desiliuda — porque uma parte de mim queria descobrir-te obsceno também, queria saber que também pensas em mim nas reuniões, que também vens no chuveiro a pensar em mim, que também guardas peças minhas em gavetas.

Tenho uma fotografia tua no telemóvel — daquela vez em que adormeceste na minha cama, de barriga para baixo, com o lençol a cobrir-te só até à cintura. Não sabes que a tirei. E olho para ela mais vezes do que devia. Nos elevadores. Nos táxis. 
Sob a mesa numa reunião em que estejas a três cadeiras de mim.

E se um dia leres isto, meu amor — não te espantes.
Não fujas.
Vem cá.

Vem provar cada uma destas confissões, uma por uma, sem pressa. Vem descobrir todas as mulheres que eu sou quando penso em ti — a decente e a outra, a que te olha nos olhos no jantar e a que te olha nos olhos quando me tens de joelhos.

Sou as duas.
E as duas são tuas.
Sempre foram.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

sábado, 12 de setembro de 2015

TECIDO DE CONFIDÊNCIA




Numa manhã de sol suave   
caminhamos lado a lado,   
o riso flui como o rio,   
a leveza nos embala.   

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O QUE SINTO NO MOMENTO EM QUE SOU TUA



Sou tua neste instante.

Deitada debaixo de ti, com o teu peso a esmagar-me deliciosamente contra o colchão, com as tuas mãos a prenderem-me os pulsos sobre a cabeça — sou tua de uma forma que nenhuma palavra decente consegue descrever.

O lençol está por baixo de nós, mas nós estamos noutro sítio. Estamos naquele lugar onde o tempo se torna elástico, onde os minutos incham como bolhas e rebentam devagar, onde nada mais existe excepto a tua respiração no meu pescoço e o meu coração a bater tão forte que tu deves senti-lo contra o teu peito.

Abre-me. Sabes que já estou aberta.

Estou aberta desde que entraste pela porta com aquele olhar que me dispensa palavras. Estou aberta desde que me arrancaste o vestido pelos ombros sem paciência para fechos. Estou aberta desde que a tua boca desceu-me pelo pescoço, pela clavícula, pelo vale entre os meus seios, ensinando-me outra vez o mapa que já sabia de cor.

Entra devagar, como sabes que gosto. Deixa-me sentir cada centímetro, deixa-me arquear as costas do colchão e gemer para dentro da tua boca aberta sobre a minha. Depois vai fundo. Vai onde ninguém mais foi. Vai a esse sítio em mim que só tu conheces e que responde só a ti — esse sítio secreto que reservei para ti antes ainda de te ter conhecido.

Sou boca — aberta a chamar-te. Sou ancas — a subir para te encontrar a meio caminho. Sou coxas — apertadas à volta da tua cintura como se tivessem medo que fugisses. Sou dedos afundados no teu cabelo, unhas cravadas nos teus ombros, suor a misturar-se com o teu suor até já não haver forma de distinguir.

Chama-me tua.
Chama-me alto.
Chama-me à frente.

Diz-me obscenidades ao ouvido enquanto te mexes dentro de mim. Diz-me como estou molhada, como estou apertada, como és tu que me pões assim. Diz-me que sou tua puta e tua rainha, tua santa e tua pecadora, tua mulher e tua desconhecida — todas ao mesmo tempo. Diz-mo. Sei que sou. Sou tudo o que quiseres que eu seja, contigo, agora, aqui.

Marca-me. Morde-me o pescoço, deixa-me a marca dos teus dentes onde toda a gente possa ver amanhã, para que eu passe o dia inteiro na rua a lembrar-me de agora, a apertar as coxas debaixo da secretária, a corar quando alguém me pergunta se estou bem.

Segura-me o pescoço com essa tua mão grande — com a gentileza de sempre, com a firmeza que me faz gemer. Sabes que gosto. Sabes que é aí que eu me perco. Sabes que é aí que deixo de ser eu e passo a ser só tua.

Cavalga-me se me quiseres em cima. Vira-me se me quiseres de bruços. Levanta-me se me quiseres contra a parede. Fá-lo. Faz de mim o que quiseres.

Estou entregue.
Estou entregue como nunca me entreguei a ninguém.
Nem a mim mesma.

Sente-me a apertar-me à tua volta... A tremer por dentro. Sente-me a vir sob ti — a chorar de gozo, a chamar-te, a esquecer o meu próprio nome — e depois vem tu, vem em mim, vem fundo, vem tudo. Deixa em mim uma parte tua para eu levar comigo pelo dia fora.

Que o meu corpo guarde o teu por dentro até amanhã.

Que a minha pele fique com o teu cheiro por baixo do perfume. Que a minha boca fique com o teu gosto por baixo do café. Que o meu ventre fique com o eco da tua fome mesmo depois de eu me lavar.

Sou tua 
— no sentido mais obsceno
— mais bonito
— mais definitivo dessa palavra.

Sou tua na mesa do jantar quando conversamos sobre coisas banais... no elevador cheio quando finjo não te olhar... Em cada instante em que respiro.

E se me tiveres de novo daqui a uma hora, serei outra vez.
E daqui a uma hora depois dessa. 
E amanhã. 
E depois de amanhã.
Sou tua.
Sempre.



  Cléia Fialho

terça-feira, 8 de setembro de 2015

CANTO DE PÁSSAROS




Na alvorada clara  
um sorriso desponta,  
círculos de luz  
dançam no arco-íris,  
corações se entrelaçam,  
como mãos buscando calor.  

As flores risadas,  
sussurram segredos ao vento,  
o perfume da vida  
se espalha em cada esquina,  
trazendo esperança,  
como um canto de pássaros.  

Crianças brincam,  
seus olhos brilhando,  
cada passo uma descoberta,  
a felicidade mora  
na simplicidade  
de um instante compartilhado.  

Abraços apertados,  
uma festa de amor,  
o sol em cada rosto,  
as vozes em harmonia,  
juntos compondo a sinfonia  
da alegria que nunca acaba.




Cléia Fialho

sábado, 5 de setembro de 2015

A MANHÃ QUE NUNCA ACABA [ 1 ]



O dia rompe devagar...
A luz entra pela persiana e cai-nos em cima dos corpos ainda sujos de ontem...
Mal abrimos os olhos... enredados no lençol amarrotado da tua cama...
O que despejaste dentro de mim há poucas horas ainda me escorre por entre as coxas... quente... teimoso... 
As minhas pernas ainda enroladas nas tuas, o cheiro a sexo pegado à pele, os fluidos misturados sem forma de saber onde acabas tu e começo eu...

E no torpor deste início de manhã, o fogo acende-se outra vez... quase sem aviso...
As bocas procuram-se com uma fome que a noite não saciou...
As línguas encontram-se sujas do sono e do gozo de ontem, e nem por isso paramos...
Levas os meus seios à tua boca... chupas com força...
Puxas-me os piercings com os dentes até eu gemer alto e arquear as costas fora do colchão...
A tua mão desce e encontra-me já encharcada — encharcada de ti, de ontem, do agora — e ris baixinho contra o meu peito porque sabes o que me fazes...

O teu sexo duro esfrega-se contra a minha coxa, exigindo entrada...
Abro-me para ti sem me pedires...
Entras de uma só vez, fundo, até ao osso, e eu grito para dentro da tua boca...
O peso do teu corpo esmaga-me contra o colchão e eu não quero outro sítio no mundo...
Começa a nossa dança suja de sempre...
Cadenciada, brutal, funda...
A cama range obscena por baixo de nós... os meus gemidos já nem se disfarçam... os teus rosnados junto ao meu pescoço fazem-me apertar-me toda à volta do teu sexo...

Sinto-me escorrer cada vez mais por ti — pela tua barriga, pelas tuas coxas, pelo lençol que amanhã não terá salvação...
Agarras-me o cabelo à raiz e puxas-me a cabeça para trás...
Minha puta — sussuras-me ao ouvido com a voz rouca. — Diz que és minha.

— Sou tua — gemo. 
— Sou toda tua. Fode-me até eu não conseguir andar.

Ris contra a minha garganta e obedeces...
Ergo-te os meus seios com as minhas mãos, ofereço-tos como se fossem coisa tua para tomares...
Chupas-me os mamilos com força enquanto me entras cada vez mais fundo...
Sinto a onda a subir — vinda das coxas, do ventre, da alma — e mordo-te o ombro para não gritar tão alto que os vizinhos batam à parede outra vez...

O ritmo acelera... o teu sexo incha dentro de mim, pulsa, avisa...

— Onde queres que venha? — arfas-me contra a boca.
— Dentro — digo. — Dentro. Marca-me outra vez.

E vens...
Vens fundo... um jorro quente que me enche por dentro pela segunda vez em poucas horas...
Deixas-me a tua marca no sítio onde ninguém vê, mas onde eu sinto o dia inteiro...
E eu venho contigo, tremendo debaixo do teu corpo, apertada à volta do teu sexo em espasmos que me tiram o ar, o nome, o juízo...
Desfaço-me em mil pedaços...
Fico assim um instante... com as pernas ainda abertas... a tua respiração no meu pescoço... o teu sexo ainda dentro de mim, ainda a pulsar os últimos avisos...

E depois — só depois — enrolo-me no calor do teu abraço.
Não me limpo.
Fico assim.
Suja de ti, marcada de ti, cheirando a ti.
E se em meia hora me quiseres outra vez — meu amor, meu homem, meu tudo — abro-me outra vez.
E outra.
E outra.
Até o dia acabar e a noite recomeçar.




  Cléia Fialho

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

UM GIRO DE EMOÇÕES




Na sombra errante da mente aflita,   
Um eco de risos que vai se perder,   
A dança das folhas, um verso que grita,   
Pintura em quadro, um sonho correndo.