Fazia trinta e dois graus à meia-noite.
O calor que não deixa dormir, que faz o corpo pedir vinho gelado, janelas abertas e roupa nenhuma. Estávamos os dois na varanda do meu quinto andar — ele de calções, sem camisa, eu com uma camisa larga dele por cima da pele nua e nada por baixo.
— Aquela luz acesa é do velho do 4º — sussurrei, apontando com o copo. — Aquele que me olha sempre no elevador.
Ele sorriu, encostado ao ferro da varanda.
— Deve estar a olhar agora.
— Deve.
Bebeu um gole de vinho. Olhou-me de cima a baixo. E aquele olhar dele — lento, escuro, o mesmo que me despia todas as noites — fez-me apertar as coxas uma contra a outra sem pensar.
Ele reparou. Claro que reparou.
— Vem cá.
Fui.
Encostou-me ao ferro da varanda, de frente para o prédio da frente, com as suas mãos pousadas nas minhas ancas por trás. O peito dele quente contra as minhas costas, a respiração dele no meu pescoço, e a luz do 4º andar mesmo em frente aos meus olhos.
— Ele vai ver— sussurrei.
— Que veja.
A boca dele desceu-me pelo pescoço. Uma das mãos subiu-me por dentro da camisa, encontrou-me o seio nu, apertou. O mamilo endureceu-lhe contra a palma e eu deixei escapar um gemido pequeno que se foi perder no ar quente da noite.
A outra mão dele desceu.
Muito devagar, subiu-me a barra da camisa. Só um pouco. O suficiente para que se visse. O suficiente para que qualquer um a olhar de uma janela em frente entendesse o que estava a acontecer.
— Abre as pernas — sussurrou-me ao ouvido.
Abri.
Os dedos dele encontraram-me. Já estava molhada — molhada desde a segunda taça de vinho, molhada desde que ele tinha tirado a camisa — e ele gemeu baixinho contra o meu pescoço quando sentiu.
— Toda a gente vai perceber — disse. — Toda a gente que estiver a olhar.
Olhei para o prédio da frente. A luz do 4º andar continuava acesa. E no 6º, agora, tinha-se acendido outra. Uma silhueta atrás do cortinado.
O meu ventre apertou-se todo. Não sabia se era vergonha ou desejo. Provavelmente as duas coisas.
Os dedos dele mexiam-se dentro de mim num ritmo lento e cruel, o polegar em círculos exactos por cima, e eu tinha de me segurar ao ferro da varanda para não cair. As minhas ancas mexiam-se sozinhas contra a mão dele. A camisa aberta ao vento morno, os seios expostos à noite de Lisboa, e uma janela em frente onde alguém, com toda a certeza, estava a olhar.
— Não pares — gemi.
— Não paro. Mas quero-te de outra forma.
Virou-me. Encostou-me as costas ao ferro da varanda. Ajoelhou-se aos meus pés na varanda em plena vista de quem quisesse ver, levantou-me a camisa e a boca dele encontrou-me ali, quente, obscena, sem paciência.
Tive de morder o pulso.
A língua dele traçava-me em círculos lentos, depois rápidos, depois fundos — e eu já não sabia onde estava, se na varanda ou no céu ou em nenhum lugar. Uma das minhas mãos agarrou-lhe o cabelo. Puxei. Ele gemeu contra mim e a vibração fez-me arquear as costas contra o ferro quente.
Senti a onda a subir depressa.
— Espera — arfei. — Quero-te dentro.
Levantou-se. Baixou os calções num só gesto. Levantou-me uma perna, encaixou-a na anca dele, e entrou em mim ali mesmo — de pé, contra o ferro da varanda, com meia Lisboa a ver.
Gritei baixinho. Ele tapou-me a boca com a mão, sorrindo.
— Ssshhh.
Moveu-se fundo, lento primeiro, depois cada vez mais rápido. O ferro quente contra as minhas costas, o corpo dele a queimar contra o meu à frente, e a certeza — a certeza deliciosa, obscena, imparável — de que estávamos a ser vistos.
Olhei por cima do ombro dele. A silhueta do 6º andar continuava lá, imóvel atrás do cortinado.
Isso fez-me vir.
Vim com um gemido abafado contra a mão dele, tremendo inteira contra o ferro, e ele veio logo a seguir, mordendo-me o ombro para não gritar, empurrando-se dentro de mim uma última vez enquanto tremia todo.
Ficámos ali um instante. Ofegantes. Suados. O calor da noite colado à pele.
Ele afastou-se devagar. Compôs-me a camisa com uma ternura estranha para o que tinha acabado de fazer. Beijou-me a testa.
— Achas que ele viu?— sussurrei.
Olhou para o prédio da frente. Sorriu.
— Ele e mais três.
Ri contra o peito dele.
E servi mais vinho.
❦
Cléia Fialho

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