Teu corpo é a maré que me arrasta e me afoga,
Onde a água invade a praia e a possui devagar;
Teu gemido — licor que meu ventre interroga,
Tua boca, sacrilégio que me faz blasfemar.
Transbordamos desejo em cada arqueio, em cada osso;
Sobre o lençol amarrotado, minha fome não muda,
Suor que escorre entre as coxas, salgado, obsceno, nosso.
São teus lábios cardume que me percorre a pele,
Matam a sede antiga que só a tua saliva sela,
Provando à alma que gozo também é oração.
É o teu corpo — corola aberta, se entrega e revele —
Derrama em mim o mel de uma febre que apela,
Água quente onde navega, insaciável, meu tesão.
❦
Cléia Fialho

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