Não sei que horas são.
Sei apenas que é a hora
em que me faltas.
e o meu corpo lembra-se dos teus contornos
antes ainda de eu lembrar o teu rosto.
Ficaste na minha pele
como quem escreve devagar
numa página em branco:
sem pressa,
sem pressão,
mas com uma tinta
que a água não desfaz.
O teu perfume mora na minha almofada,
e eu regresso-lhe todas as noites
como quem regressa a um altar.
Respiro-te fundo.
Estremeço inteira.
Não me lavo do que ficou de ti —
deixo-te habitar a minha pele um pouco mais,
deixo-te perfumar-me por dentro,
deixo o teu rasto tornar-se meu.
Sinto-te ainda nos meus lábios —
morno,
antigo,
teu.
E é assim que eu adormeço:
envolta em ti,
guardada em ti,
pertencendo-te
sem que ninguém precise saber.
❦
Cléia Fialho


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