A luz da manhã quebra sobre a mesa
como um vidro jogado contra o silêncio
e os objetos perdem seus contornos habituais
escorrendo como tinta sob o sol de agosto.
mas meus dedos atravessam a ideia da matéria
onde antes havia parede agora resta um sopro
um vazio que respira entre o ontem e o agora.
As vozes que atravessam o corredor de casa
chegam picadas em sílabas desconexas
como se a linguagem fosse um mapa rasgado
e o mundo insistisse em ser apenas um rascunho.
Tudo o que eu sabia sobre o chão que piso
desfaz se em poeira fina sob o meu olhar
resta apenas o espaço entre as coisas
e a estranha liberdade de não saber mais nada.
❦
Cléia Fialho


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