Sou tua neste instante.
Deitada debaixo de ti, com o teu peso a esmagar-me deliciosamente contra o colchão, com as tuas mãos a prenderem-me os pulsos sobre a cabeça — sou tua de uma forma que nenhuma palavra decente consegue descrever.
O lençol está por baixo de nós, mas nós estamos noutro sítio. Estamos naquele lugar onde o tempo se torna elástico, onde os minutos incham como bolhas e rebentam devagar, onde nada mais existe excepto a tua respiração no meu pescoço e o meu coração a bater tão forte que tu deves senti-lo contra o teu peito.
Abre-me. Sabes que já estou aberta.
Estou aberta desde que entraste pela porta com aquele olhar que me dispensa palavras. Estou aberta desde que me arrancaste o vestido pelos ombros sem paciência para fechos. Estou aberta desde que a tua boca desceu-me pelo pescoço, pela clavícula, pelo vale entre os meus seios, ensinando-me outra vez o mapa que já sabia de cor.
Entra devagar, como sabes que gosto. Deixa-me sentir cada centímetro, deixa-me arquear as costas do colchão e gemer para dentro da tua boca aberta sobre a minha. Depois vai fundo. Vai onde ninguém mais foi. Vai a esse sítio em mim que só tu conheces e que responde só a ti — esse sítio secreto que reservei para ti antes ainda de te ter conhecido.
Sou boca — aberta a chamar-te. Sou ancas — a subir para te encontrar a meio caminho. Sou coxas — apertadas à volta da tua cintura como se tivessem medo que fugisses. Sou dedos afundados no teu cabelo, unhas cravadas nos teus ombros, suor a misturar-se com o teu suor até já não haver forma de distinguir.
Chama-me tua.
Chama-me alto.
Chama-me à frente.
Diz-me obscenidades ao ouvido enquanto te mexes dentro de mim. Diz-me como estou molhada, como estou apertada, como és tu que me pões assim. Diz-me que sou tua puta e tua rainha, tua santa e tua pecadora, tua mulher e tua desconhecida — todas ao mesmo tempo. Diz-mo. Sei que sou. Sou tudo o que quiseres que eu seja, contigo, agora, aqui.
Marca-me. Morde-me o pescoço, deixa-me a marca dos teus dentes onde toda a gente possa ver amanhã, para que eu passe o dia inteiro na rua a lembrar-me de agora, a apertar as coxas debaixo da secretária, a corar quando alguém me pergunta se estou bem.
Segura-me o pescoço com essa tua mão grande — com a gentileza de sempre, com a firmeza que me faz gemer. Sabes que gosto. Sabes que é aí que eu me perco. Sabes que é aí que deixo de ser eu e passo a ser só tua.
Cavalga-me se me quiseres em cima. Vira-me se me quiseres de bruços. Levanta-me se me quiseres contra a parede. Fá-lo. Faz de mim o que quiseres.
Estou entregue.
Estou entregue como nunca me entreguei a ninguém.
Nem a mim mesma.
Sente-me a apertar-me à tua volta... A tremer por dentro. Sente-me a vir sob ti — a chorar de gozo, a chamar-te, a esquecer o meu próprio nome — e depois vem tu, vem em mim, vem fundo, vem tudo. Deixa em mim uma parte tua para eu levar comigo pelo dia fora.
Que o meu corpo guarde o teu por dentro até amanhã.
Que a minha pele fique com o teu cheiro por baixo do perfume. Que a minha boca fique com o teu gosto por baixo do café. Que o meu ventre fique com o eco da tua fome mesmo depois de eu me lavar.
Sou tua
— no sentido mais obsceno
— mais bonito
— mais definitivo dessa palavra.
Sou tua na mesa do jantar quando conversamos sobre coisas banais... no elevador cheio quando finjo não te olhar... Em cada instante em que respiro.
E se me tiveres de novo daqui a uma hora, serei outra vez.
E daqui a uma hora depois dessa.
E amanhã.
E depois de amanhã.
Sou tua.
Sempre.
❦
Cléia Fialho

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