O tempo aqui não passa;
— ele fermenta —
Temos paciência de alquimistas
preparando o vinho raro
que só a nossa pele conhece,
até que a boca não saiba mais
onde termina o sabor do outro.
Não beijo apenas teus lábios; eu os degusto,
buscando as notas ocultas,
a doçura que se mistura à volúpia,
numa dança onde o gosto vira vertigem.
Cada gole desse néctar me deixa mais faminto,
um banquete servido na penumbra
onde a única regra é a nossa fome insaciável.
Nossos corpos são o cálice e o vinho,
numa embriaguez que não busca o fim,
mas a repetição incessante do próximo gole.
A chama aqui é combustível e fogo,
um deleite que arde e alimenta,
deixando no ar o rastro de algo que é,
simultaneamente,
o nosso vício mais doce
e a nossa marca mais profunda.
❦
Cléia Fialho

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