Confesso: penso em ti
nas horas mais impróprias.
No meio da reunião,
na fila do café,
que existe algo mais urgente
que o teu zíper entreaberto
na minha memória.
Penso na tua língua.
Penso nos teus dedos.
Penso naquele gesto
— tu sabes qual —
em que reviras os olhos
e o pescoço se rende
e o teu corpo diz *sim*
antes da tua voz.
Sou uma mulher decente
em público.
Mas contigo, no escuro,
sou tudo o que a moral condena:
sou boca, sou garra, sou fome,
sou o teu nome dito baixo
como quem diz um palavrão.
E se isso é lascívia,
que seja.
Que me condenem os santos,
que me expulsem os anjos —
prefiro o teu inferno morno
ao céu de qualquer outro.
❦
Cléia Fialho

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