Um murmúrio teu — baixo, molhado —
escapa da tua boca
antes que a minha pele o mereça,
e já me faz arquear as costas
Suspiras contra o meu ombro
e o teu suspiro tem peso —
peso de mão que puxa,
peso de coxa que abre,
peso de tudo o que ainda não fizeste
mas já me anunciaste.
Partilhamos o silêncio
que só os corpos famintos entendem,
o afeto que morde
sem deixar de ser afeto,
a ternura que se aprofunda
até virar exigência.
O instante alarga-se,
lento, obsceno, teimoso —
minutos que sabem a horas,
segundos que incham como carne,
enquanto a tua boca explora
a curva onde eu me rendo.
Doce exploração, disseste tu.
Feroz mansidão, digo eu,
enquanto o teu corpo me embarga
o pensamento inteiro,
e eu adormeço acordada
debaixo da tua fome.
❦
Cléia Fialho
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