As sombras dançam, sussurram segredos
no tecido do tempo, o instante se esvai —
teu retrato gravado em desejos quedos
e a ausência é presença, nunca um "não vai".
quero o vai-e-vem,
quero a tua língua escrevendo o meu nome
em córregos pelo pescoço abaixo.
As sombras não sussurram mais,
gritam.
Grudam-se na pele como suor,
como os dedos que se perdem
por baixo da cintura,
forçando o corpo a ceder.
O tempo não se esvai —
ele transborda,
pinga lento entre as coxas,
uma escuridão úmida
que só a tua boca ilumina.
Teu retrato não está mais na parede,
está sobre mim,
quadril contra quadril,
a arquear do meu corpo
encontrando a tua ferocidade em ternura.
Ausência?
Que palavra é essa?
Aqui só cabe o cheiro,
o sal do encontro,
o não-dizer que se desfaz
em gemido.
Aqui o nunca
vira agora,
e o agora
nunca acaba.
❦
Cléia Fialho

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