Deixa a métrica morrer num canto esquecido,
Que o corpo assume a palavra agora,
Meu ventre é altar aberto ao teu delírio sagrado,
Meus lábios escorrendo devoção numa coreia de fogo.
Mãos firmes te empurro para o vazio do quarto,
Deito-te sobre a madeira da mesa,
Pernas que se abrem como asas quebradas ao crepúsculo,
E eu entro,
Não com ternura — com o peso de quem sabe o que veio buscar,
Fundo,
No epicentro onde tudo treme e se rompe,
Onde o tempo para de contar,
E a casa inteira engole os teus gritos como quem bebe veneno.
Teus dedos cravam-se na madeira,
Unhas que arrancam lascas, arrancam histórias,
Eu sinto cada músculo teu apertar em volta do meu,
Um nó de carne viva, um aperto de guerra,
E o suor desce pelas tuas costas em rios silenciosos,
Salinidade de mar, salinidade de pranto,
Tudo junto, tudo misturado,
Não há mais onde esconder o que somos.
Mordo o teu ombro para não gritar também,
Mas o som escapa — animal, desconhecido,
Uma fera que morava em mim e que tu despertaste,
E agora ela anda solta,
Rasgando lençóis, derrubando cadeiras,
Marcando o teu pescoço com sinais de posse,
Bandeiras de conquista em pele queimada.
A mesa range,
Um gemido de madeira velha acompanhando o nosso,
E eu não paro,
Não posso parar,
O movimento é tribal, é antigo, é antes das palavras,
Quadril batendo quadril,
Osso batendo osso,
A carne a fazer aquele som úmido e brutal,
Que só o sexo conhece,
Que só a fome reconhece.
Tuas pernas envolvem-me como serpentes,
Puxando-me mais para dentro,
Mais fundo,
Até onde já não há ar,
Até onde respirar é secundário,
Onde só existe o calor,
O bater do sangue nos ouvidos,
O zumbido do universo a colapsar entre as tuas coxas.
E quando penso que não há mais,
Que o corpo já não aguenta,
Tu arqueias a coluna,
Jogas a cabeça para trás,
E soltas aquele som —
Metade gemido, metade oraçao blasfema —
Que me faz perder o pouco de controle que me restava.
Eu derramo-me em ti,
Não como água,
Como dilúvio,
Como cataclismo,
E tu recebes,
Aberta, rasgada, completa,
O ventre a palpitar ainda,
A boca a murmurar o meu nome
como única língua que ainda sabes falar.
Ficamos assim,
Espalhados sobre a mesa,
Entre pratos que caíram e copos que se partiram,
A casa em silêncio de novo,
Mas carregada de nós,
Do cheiro denso do que fizemos,
Das marcas que não se apagam,
Do pacto de carne que selámos sem palavras,
Numa manhã que já não pertence ao mundo,
Mas só ao nosso instinto,
À nossa fome,
Ao nosso rito de sangue e sal.
❦
Cléia Fialho
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