Sinto-me arder, meu amor,
quando enroscas as tuas pernas nas minhas,
prendendo-me num abrigo que é armadilha,
que me imobiliza sem grade nem corda,
só com a promessa muda das tuas ancas.
Desces devagar pelo meu corpo,
a boca a marcar o caminho da pele,
mordendo-me a curva do pescoço,
demorando-te no vale entre os seios,
chupando-me os mamilos duros até eu gemer alto,
descendo em espiral pelo meu ventre,
provando-me o umbigo como quem prova mel,
e as tuas coxas nuas encostam-se às minhas,
abrem-nas com uma exigência lenta,
espalham-nas como quem desdobra um mapa,
quentes, firmes, invasoras,
insistindo onde o pudor ainda hesita,
esfregando-se contra a minha humidade,
até eu ceder inteira, molhada, tua,
encontrando dentro de mim
os cantos secretos que só tu conheces,
o ponto exacto que me arqueia as costas,
o lugar onde o meu juízo se afoga,
a verdade que a boca não confessa,
mas que o corpo grita em espasmos,
o gemido que o pudor sempre calou,
e que agora escapa alto, rouco, obsceno,
enchendo o quarto até as paredes cederem,
o sim gritado sem palavra,
o sim escrito em suor, em unha, em dente,
o sim que só se diz assim —
com as coxas trémulas contra as tuas,
com a tua boca colada à minha,
com o teu corpo profundo dentro do meu,
tão fundo que já não sei
onde acabas tu e onde começo eu.
❦
Cléia Fialho

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