Tuas mãos não deslizam — investem.
Torrente bruta contra a minha pele em brasa,
rasgam veredas que só teus dedos decifram,
onde o tato se faz língua
Entre o suspiro que estripela a noite
e o gemido que a noite devolve em eco,
eu me despedaço.
Teu olhar não me prende — me afoga.
Abismo escuro onde meu corpo naufraga
de pernas abertas, de ventre em choque,
sentidos em labareda.
Perco-me em cada veia que tu abres com a unha,
em cada contração que tu roubas com a boca,
até que o rio se torne delírio
e o delírio, carne viva sob teu dente.
Suor escorre como o tempo entre os nossos ossos.
O ar é pouco — roubamos o mesmo fôlego,
colamos os peitos num só batismo selvagem.
Somos dois animais no mesmo cio,
e a noite, que assiste, arde em nossos pelos,
molhada, tensa, prestes a ruir.
Não há margem.
Não há volta.
Só o teu abismo dentro do meu rio
— e o meu rio, despencando, a te engolir.
❦
Cléia Fialho

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