Dos prazeres que a vida nos dá a colher,
não quero os que pendem mansos dos ramos.
Quero os que se escondem no fundo do teu sexo,
os que só se entregam quando a minha boca
até o ar se tornar um fio fino entre nós.
Quero o fruto que não se colhe
– arranca-se.
O que não se prova
– devora-se.
O que não se guarda
– escorre pelo rosto,
pinga na curva do meu peito,
desce até onde o teu juízo se perde
no calor úmido da minha entreperna.
Como frutos maduros que se aventuram
para fora da casca,
assim o teu corpo se arremessa contra o meu,
— sem rede,
— sem aviso,
— sem pudor.
És pêssego aberto,
— manga a escorrer,
— figo maduro.
E cada mordida é um grito que não se cala,
cada arranhão é um verso que não se escreve,
cada gemido é a prova de que a fruta não mente.
Em cada toque,
o amanhecer não vem com luz
— vem com suor,
— com tremor,
— com língua acesa.
Vem com a tua respiração descompassada
contra a minha coxa ainda molhada.
Em cada amanhecer,
eu acordo dentro de ti,
e tu dentro de mim,
e o dia começa
onde a noite nos deixou:
— colados,
— ofegantes,
com o gosto a fruta na saliva e o desejo a crescer de novo,
— mais maduro,
— mais fundo,
— mais inteiro.
❦
Cléia Fialho

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