As palavras não ditas, na bruma escondidas,
transformam-se em versos que anseiam voar —
mas eu não quero que voem.
Quero que caiam sobre mim
que me tapem a respiração
e me deixem nua no próprio desejo.
No labirinto da mente,
o pensamento de ti é um dedo
que desce sem pressa,
que sabe onde a pele esquece
quem era antes
e só responde em arquejo.
Não é mais silêncio.
É o som do corpo aprendendo a falar
em língua que não tem tradução —
só a língua da boca no pescoço,
só o arranhar das unhas
nas costas que se curvam
como ponte para o teu prazer.
No eco do silêncio,
estou pronta a amar —
não, estou pronta a ser tomada,
a abrir as fronteiras da pele
e deixar que tu explores
com mãos, com olhar, com fome,
cada centímetro que se contrai
esperando o teu avanço.
Que os versos não voe.
Que fiquem aqui,
presos entre os meus lábios,
roçando a tua orelha
enquanto tu entras
e eu esqueço
até de respirar.
A bruma não esconde mais nada.
Eu sou toda exposta,
um grito que não quer fim,
só quer repetição.
❦
Cléia Fialho

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