e em meu pensar, teu vulto se desenha.
Um fantasma doce, ardente, desejado,
que a alma em fogo brando me empenha.
Continuo a vagar pelos recantos
do que poderíamos ser, sem receio.
Um jardim secreto, sem espantos,
onde a nudez floresce em pleno anseio.
A vontade que me inunda, torrente
de tudo que guardei, de ti esperei.
Quero desatar, ardente, impaciente,
o que em meu ser guardei e hoje almejei.
Libertar este clamor, esta fome,
esta sede que me queima, sem pudor.
Dar-te a provar, ah, doce meu nome,
o néctar que emana do meu corpo, amor.
Um vinho ancestral, fermento antigo,
que em cada gota encerra um universo.
Beber-te, sim, meu anjo, meu abrigo,
consumir teu ser num beijo adverso.
Te desfazer em mim, pedaço a pedaço,
mistura de peles, aroma e calor.
Em teu abraço, encontrar o meu espaço,
perdido na vastidão do nosso ardor.
Que as horas se desfaçam, em torrente,
e o tempo se dobre à nossa paixão.
Que o mundo lá fora, indiferente,
nos ignore em nossa doce união.
Teu corpo em meu corpo, um só compasso,
um ritmo que a terra nunca escutou.
E em cada toque, em cada abraço,
a vida em nós, inteira, se revelou.
Um desejo primitivo, primordial,
que nos incendeia, que nos faz vibrar.
Um êxtase profundo, celestial,
e em ti, meu ser, desejo me encontrar.
❦
Cléia Fialho
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