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segunda-feira, 14 de julho de 2014

MAIS SELVAGENS




Depois de tantas luas vazias,
o teu retorno rasga a noite
como um relâmpago impaciente.

Nem existe tempo
para o silêncio respirar.

A porta permanece entreaberta,
o mundo continua do lado de fora,
mas eu já te encontro
com a urgência de quem atravessou
um deserto inteiro
carregando sede na garganta.

A distância morre
no instante em que nossos olhos se reconhecem.
Não há cerimônia.
Não há prudência.

Existe apenas esse choque,
esse ímã desgovernado
que arrasta os nossos corpos
para um território
onde nenhuma ausência sobrevive.

Seguro teu rosto
como quem recupera
algo que nunca deixou de pertencer
ao próprio peito.

Meu beijo nasce faminto,
profundo,
embriagado pela espera.

Nele deposito
cada madrugada vazia,
cada lembrança que queimou por dentro,
cada palavra engolida
era apenas um eco
percorrendo a minha pele.

Te abraço
com força suficiente
para desfazer o tempo.

Meu corpo inteiro
recorda o teu
antes mesmo do primeiro toque.

É memória.
É instinto.

É fogo reconhecendo fogo.
O ar desaparece.
A respiração tropeça.

O coração acelera
até perder o compasso,
como se finalmente entendesse
que algumas esperas
nascem apenas
para tornar o reencontro
insuportavelmente intenso.

Teu perfume
desperta em mim
uma vertigem antiga.

Minhas mãos percorrem
cada contorno,
cada curva,
cada centímetro
que a saudade decorou
sem jamais esquecer.

É como regressar
a um lugar sagrado,
onde cada gesto
acende outro,
e cada aproximação
faz o desejo crescer
como uma tempestade
que se recusa
a encontrar repouso.

Teu calor invade o meu.
Meu calor responde.

Entre nós,
não existe espaço
para hesitação.

Apenas o ritmo acelerado
de dois corações
que decidiram incendiar
a mesma noite.

Tua voz baixa,
quase rouca,
atravessa meu corpo
como uma corrente elétrica.

Fecho os olhos
e deixo que esse som
me conduza
ao lugar onde a razão
abandona qualquer resistência.

A espera nos deixou mais intensos.
Mais livres.
Mais selvagens.

Cada segundo distante
transformou-se
em combustível
para este instante
que explode
feito estrela
dentro do peito.

Somos tempestade,
maré, faísca,
vento atravessando labaredas.

Somos o encontro
de duas vontades
que jamais aprenderam
a caminhar devagar.

Quando a madrugada
se deita sobre nossos ombros,
ainda encontro
nos teus olhos
a mesma fome luminosa
que encontrei
na primeira vez
em que me tocaste.

E descubro,
com um sorriso ardente,
que existem reencontros
capazes de apagar
todos os calendários,
porque certos amores
não contam o tempo.

Apenas reconhecem
o instante exato
de voltar a arder.






Cléia Fialho

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