Me arremessas contra o aço do frigobar,
O gelo estilhaça no chão de cerâmica,
Cristais derretendo entre meus dedos abertos,
E tua boca já me devora — não beija, devora —
És a minha ruína de língua e dente,
A perdição que não pede licença para entrar.
Meus gemidos não saem — eclodem,
Trovões presos na garganta, brutos, surdos,
Sem clemência, sem piedade,
Tuas mãos afundam na minha carne
como se eu fosse terra molhada,
E tu, fera faminta, escavas,
Minha luxúria, minha urgência viva,
A sede que não se mata, só cresce.
Amarras-me nos lençóis com nós de corda crua,
Meus pulsos ardem em tensão de querer soltar-me
Só para ser pega de novo,
E tua boca desce — invasão lenta, invasão certeira —
Queimando o pescoço, detonando os seios,
Fazendo-me arquear como ponte prestes a ceder,
Porque ceder é o que resta,
E ceder é o que eu quero,
E ceder é a única língua que entendo quando falo contigo.
Mas não para aí.
Arrastas-me pelo corredor escuro,
O frio do chão de ladrilho morde meus calcanhares,
Minha pele deixa rastros invisíveis de calor,
E tu me puxas pelo cabelo, pela cintura, pelo instinto,
Jogas-me contra a porta de madeira
com violência de quem sabe o que quer,
Sem pausa, sem talvez, sem amanhã,
O batente treme, eu treco, eu grito,
E és tu — fera proibida, sentença escrita em fogo,
Minha condenação, minha única religião.
Tua respiração é áspera no meu ouvido,
Um rosário de palavrões e ordens,
E eu obedeço porque desobedecer seria morrer sem morrer,
Tuas unhas abrem caminhos nas minhas costas,
Mapas de uma geografia que só existe entre nós dois,
Sangue de leve, suor de verdade,
O cheiro de nós impregna o ar como incenso de pecado.
Penetras-me sem aviso, sem delicadeza,
Com a certeza de quem já me possuiu antes de me tocar,
E eu racho ao meio — não me parto, me racho,
Abro-me em flor carnívora, em ferida que pede mais ferida,
O impacto soa na minha boca,
E eu o grito, e tu o silencias com a mão,
Porque aqui não há lugar para divindade,
Só para o animal, só para a lama, só para o pulso.
Estocada após estocada,
O madeiro da porta bate contra a parede,
Marcando o ritmo da nossa sinfonia depravada,
Eu envolvo-te com as pernas, com a boca, com a alma,
Apertando-te dentro de mim
como quem segura água com os punhos,
Sabendo que não se segura, sabendo que se perde,
E perdendo-me de bom grado,
de olhos revirados, de língua para fora.
A madrugada assiste através da janela entreaberta,
Testemunha muda do que fazemos,
Do suor que escorre pelas tuas costas,
Do meu corpo contorcendo-se sob o teu,
Do som da pele a bater em pele,
Do cheiro de sexo e de guerra,
De duas feras que não se beijam — se devoram.
E quando finalmente caímos no chão,
Entre cacos de gelo derretido e lençóis rasgados,
Tu ainda estás em mim, pulsando, latejando,
Uma promessa de segunda rodada,
De terceira, de quarta, de eternidade,
Porque esta fome não tem fim,
Este abismo não tem fundo,
E eu — eu sou a tua queda,
E tu és a minha.
❦
Cléia Fialho

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