Em mim te guardo, como quem colhe tempestades,
fecho o corpo para não deixar escapar,
escrevo no ventre relâmpagos dispersos,
sinto tua presença ainda a se multiplicar.
minha pele é campo aberto à vertigem,
cada gesto nos arrasta ao abismo,
cada suspiro é trovão que nos fere.
Vem, meu delírio, deita-te ao meu lado,
a noite é vasta, o corpo é chama breve,
bebe minha boca, devora meu fado,
tenho fome — e a lua se ergue leve.
Somos feras em dança selvagem,
rasgando o silêncio com dentes de sombra,
no leito se escreve a fúria do mundo,
e o poema sangra até a última dobra.
❦
Cléia Fialho

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