te chamo em cada veia aberta
te invento em cada sombra que se move
na cama que ainda guarda teu vazio.
Povoas não só sonhos -
invades o suor dos meus lençóis
tua boca desce por minha espinha
como um rio que não pede licença.
A noite não traz teu rosto:
traz tuas mãos onde não estão
traz teu peito colado às minhas costas
traz o peso que me falta quando acordo.
Deito-me e és tu quem me deita
teu corpo sobre o meu - não lembras?
pesado, quente, dono de cada curva
teu beijo não é lembrança: é ferida.
Molhado e quente como a língua
que desenhou meus ossos
enlouqueço quando fecho os olhos
e ainda sinto teu gosto na minha nuca.
O fogo não arde por dentro
arde onde me tocaste
arde onde ainda não tocas
devora não a alma - devora o instante
em que fui tua e tu foste minha.
Adormeço enroscada em ti
mesmo que sejas apenas
o eco do teu cheiro no travesseiro
o ritmo não é do coração -
é o que resta do teu quadril contra o meu.
Dorme comigo!
Não como promessa - como ordem
que tua mão encontre meu sexo no escuro
que tua boca saiba onde me doeu
quando te foste e eu fiquei.
A noite é o repicar dos amantes
mas eu sou o sino que ainda vibra
o som que te chama pelo nome
enquanto me toco pensando
que és tu quem me toca.
Sabes que mesmo ausente
és mais presente que meu próprio corpo
quando arqueio e chamo
e tu respondes de dentro de mim.
Eu te amarei não amanhã
mas agora - nesta hora em que a cama
é o único altar onde te sacrifico
onde te crucifico em cada gemido.
Te levarei às estrelas
não nos sonhos - nas coxas abertas
no céu que se forma entre meus dedos
e tuas mãos invisíveis guiando.
Roubaremos as cores da manhã
mas primeiro roubaremos a noite
o escuro onde teus olhos me vigiam
onde tua boca me come sem pressa.
Pintaremos nossas vidas
com o leite e o mel dos nossos corpos
com o sal que escorre das minhas costas
e o doce amargo do teu desejo.
A noite me traz teu rosto
mas não apenas rosto:
traz o que tu nunca me deste
e eu nunca pedi -
o silêncio onde teu nome
é a única palavra que sei gritar.
Mais que nunca...
não me fizeste falta
quando tinhas corpo
agora que és fantasma
és mais carne que a carne.
Dorme comigo!
Não no sonho - no meu corpo
que ainda se abre como noite
para que entres
e nunca mais saias.
❦
Cléia Fialho

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