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quinta-feira, 26 de junho de 2014

DEVORADORES DA AURORA




A claridade vai rasgar a fresta da janela nos encontrando em ruínas,
dois corpos exauridos pela tempestade que nós mesmos provocamos.

Mesmo quando a luz do dia expuser o nosso caos,
recusaremos o desatar deste nó cego:
nossas pernas continuarão trançadas, presas, fundidas,
como raízes que subverteram o chão do quarto.

Grafaremos a nossa história nas marcas roxas que a carne exibe,
linhas invisíveis de uma escrita visceral gravada na derme,
sobre o linho amarrotado, batizado pelo nosso suor.

Tu finalmente estás aqui, palpável, denso, real.
Não és mais a miragem que assombrava as minhas noites frias.

És pura matéria, calor que emana, apetite que não se esconde.
Minha memória física despertou antes mesmo que a razão pudesse processar;
os meus tecidos lembraram-se do teu peso muito antes do meu sopro.

Sem hesitação, separo o que estava fechado, abro o caminho,
e guio o teu eixo para o centro do meu incêndio.

Tomo o controle da tua estrutura, cavalgando o teu ritmo com fúria cega,
uma entidade sem identidade, despida de nomes ou passados.

Instalo-me sobre o teu topo, imersa na minha própria inundação,
uma humidade espessa e voraz que te engole por completo.

Estou faminta, selvagem, e paradoxalmente em paz,
ancorada no epicentro do teu abalo sísmico.

O movimento se estende, arrastado e violento,
um vaivém que desafia a gravidade e o bom senso.

Minhas mãos se espalham pelo teu peito largo,
sentindo o teu coração bater como um tambor de guerra sob a minha palma.

Tu cravas os teus dedos na minha cintura,
ditando a profundidade, exigindo mais de mim,
enquanto o meu quadril desenha círculos de puro delírio no ar sufocante.

Nossos gemidos se misturam ao som do impacto,
um eco metálico e úmido que preenche cada canto vazio.

Não há espaço para a delicadeza quando a carne clama por sobrevivência;
somos dois predadores dividindo a mesma presa,
dilacerando a distância que um dia ousou nos afastar.

E quando o ápice nos atingir, como um raio que parte o céu,
desabaremos um sobre o outro, sem ar, sem chão,
deixando que o dia nasça sobre o nosso santuário profano,
onde a carne venceu o tempo e o desejo se fez eterno.






Cléia Fialho

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