TOCA DA LEOA
Sensualidade & Erotismo à Flor Da Poesia





sábado, 28 de junho de 2014

BOCA ABERTA PRA TE RECEBER



Que o chão trema, que o teto sua,
que a vizinha bata na parede e eu grite mais alto,
que o poste da rua apague de vergonha,
que o cão ladre, que o vento pare,
que o mundo inteiro ouça o meu esqueleto ranger
debaixo do teu peso, em cima do teu peito,
dentro do teu gemido que não cabe em mim.

Me come como quem arranca fruta podre do galho,
me mastiga com os dentes de trás,
me engasga com o teu nome que eu engulo,
e depois me cospe na cama,
e depois me lambe do chão,
e depois me enfia de novo no teu osso,
até que o meu espinho seja uma ferroada,
e o teu calcanhar, um martelo,
e o meu útero, uma forja.

Não para, não diminui, não tem piedade—
eu quero o teu braço me segurando pelos pelos,
eu quero a tua unha me arranhando o ombro,
eu quero a tua frase maldita no meu ouvido,
aquela que só você sabe dizer quando a luz apaga
e o teu hálito vira álcool,
e a tua língua vira espora,
e o meu clitóris vira cinzenta,
e eu viro uma besta que babra e chora e ri
enquanto teu dedo me abre como uma carta
que ninguém devia ter lido.

Troca o lençol, troca o ar, troca a pele,
me vira do avesso, me dobra na cintura,
me encosta na janela, me mostra pro céu,
deixa que a lua veja como eu te montodesmorono,
deixa que o vizinho grave o meu berro,
que eu não tenho vergonha, tenho fome,
e a tua boca é o único prato,
e o teu sexo é o único garfo,
e eu sou a carne que se abre em flor,
em chama, em lama, em lava.

Me entra como quem derruba muro,
me sai como quem volta pra roubar,
me deixa marcada, me deixa mordaça,
me deixa o cheiro do teu pescoço na minha narina,
e o teu sabor na minha língua—
por três dias, por sete noites,
até que eu esqueça o meu próprio nome
e só lembre o jeito que teu quadril se quebra
quando eu aperto as minhas coxas em volta da tua cintura
e abro os meus braços— e caio.

Caio e berro e te chamo de todos os nomes proibidos,
e te abraço com as pernas, te mordo com os olhos,
te aspiro com o peito, te expiro com o ombro,
e no final, quando o suor secar,
quando o meu joelho doer,
quando a tua coxa parar de tremer,
eu ainda vou estar aqui—
aberta, úmida, quente,
pronta pra te engolir de novo,
desde que você me chame,
desde que você me quebre,
desde que você me nomeie com essa voz
que faz o meu útero se revirar
e o meu coração—
palpitar como um tambor de macumba
dizendo:
vem — vem — vem — vem
que eu já estou de quatro no chão
com a cara enterrada no teu colchão
e a boca aberta pra te receber
como quem recebe um tiro
e agradece.




  Cléia Fialho

segunda-feira, 16 de junho de 2014

NUM LUGAR PÚBLICO



POR TRÁS DAS CORTINAS

A festa estava cheia. Gente a dançar, a beber, a rir. Mas eles não estavam na festa. Estavam no quarto ao lado, a porta entreaberta, os corpos colados contra a parede, a respiração ofegante.

Ela estava de costas para ele, a saia levantada, a calcinha caída nos tornozelos, as mãos apoiadas no batente da janela. A cortina corria, mas não fechava completamente. Quem passasse no corredor podia ver, se olhasse com atenção. E era isso que os excitava.

— Alguém pode ver-nos — sussurrou ela, a voz trémula.

— Eu sei — respondeu ele, e empurrou-a contra a parede.

Ele não usou os dedos. Não houve preliminares. Apenas a dureza do membro a pressionar a entrada molhada, a entrar com uma estocada única, funda e bruta. Ela mordeu o braço para não gritar, mas o som escapou-lhe, um gemido longo que se perdeu no barulho da música.

Ele começou a mover-se, os quadris a baterem contra as nádegas, o ritmo rápido e desesperado. A cada estocada, o corpo dela colidia com o batente da janela, a cortina abria-se um pouco mais, a luz do corredor entrava e iluminava a cena.

— Mais fundo — sussurrou ela, e ele obedeceu.

A mão dele tapou-lhe a boca, abafando os gemidos que se tornavam gritos. A outra mão desceu ao clitóris, a pressionar com a mesma violência com que a penetrava, os dedos molhados do líquido que escorria pelas coxas.

— Vais gozar — disse ele, a voz rouca — vais gozar e toda a gente vai ouvir.

Ela balançou a cabeça, mas não conseguiu negar. O gozo subiu como um incêndio, as pernas a tremerem, os dedos a arranharem a parede, os olhos a revirarem. Quando chegou, o grito escapou-lhe através da mão dele, um som abafado, longo e profundo.

Ele seguiu-a segundos depois, o líquido quente a jorrar dentro dela, os músculos contraídos, o corpo a tremer contra o dela.

Ficaram ali, ofegantes, a cortina a balançar, a festa a continuar do outro lado da porta. Quando ele finalmente se afastou, ela ajustou a saia, limpou os lábios e olhou para ele com um sorriso lento.

— Outra vez? — perguntou ela.

Ele olhou para a porta entreaberta e respondeu:

— Outra vez.




  Cléia Fialho