Quando a madrugada enfim se render
e a primeira claridade tocar a janela,
não haverá vencedores,
nem vencidos.
respirando o mesmo silêncio,
envolvidos pela desordem
que o amor deixou espalhada.
Os lençóis guardarão
a memória da tempestade.
As marcas discretas na pele
serão pequenas constelações,
mapas secretos de uma noite
que recusou qualquer medida.
Nossos cansaços
terão o sabor das batalhas
travadas sem medo,
onde cada entrega
foi também um renascimento.
O tempo perderá importância.
As horas — envergonhadas,
escorregarão pelo chão,
incapazes de interromper
o abrigo dos teus braços.
Enquanto o sol desperta o mundo,
nós permaneceremos
na fronteira onde a noite
ainda insiste em respirar.
Ali,
escreveremos nossa história
sem tinta — sem papel —
apenas com a lembrança
que pulsa sob a pele,
como se cada cicatriz invisível
fosse um verso
gravado pela intensidade
de tudo o que vivemos.
Teu retorno devolveu
à minha carne
um idioma esquecido.
Antes mesmo que a razão
tentasse compreender,
meu corpo já sabia.
Reconheceu teu calor,
teu perfume,
a cadência da tua respiração,
como quem encontra novamente
a própria casa
depois de uma longa travessia.
Há reencontros
que não pedem licença.
Entram — ocupam — transformam.
Foi assim contigo.
Toda a saudade desfez-se
num único instante,
feito chuva pesada
caindo sobre terra ressequida.
A distância,
que parecia infinita,
encolheu até desaparecer
dentro de um abraço.
E ali fiquei,
com o rosto escondido
junto ao teu peito,
ouvindo teu coração
como quem escuta
a música mais antiga
que conhece.
Nossas mãos
descobriram caminhos inéditos,
não pela pressa,
mas pela curiosidade
de quem deseja conhecer
cada detalhe
como se fosse a primeira vez.
O toque tornou-se conversa.
O olhar — confissão.
O sorriso — promessa.
Cada aproximação
abria outra porta,
outro horizonte,
outra chama.
Nada precisava ser dito.
Os corpos encontravam
a linguagem suficiente
na delicadeza — na urgência,
na maneira como a respiração
se confundia
até parecer uma só.
A madrugada nos vestiu de coragem.
Abandonamos
os últimos receios,
as últimas máscaras,
e permanecemos apenas
na verdade simples
de querer estar ali,
inteiros — presentes,
sem esconder a fome de afeto,
de calor — de permanência.
Quando o amanhecer
espalhar ouro pelas paredes,
talvez sorriamos ao perceber
que ainda carregamosnos olhos
o brilho da noite.
Porque certos encontros
não terminam
quando o céu clareia.
Continuam acesos
na memória, na pele,
na saudade futura,
como brasas pacientes
que jamais aceitam
transformar-se em cinza.
E mesmo quando o dia
reivindicar nossos passos,
levaremos conosco
a certeza silenciosa
de que existe um lugar
onde sempre voltaremos:
o instante exato
em que duas almas
se reconheceram,
e fizeram da própria intensidade
um refúgio impossível
de esquecer.
❦
Cléia Fialho
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