Chegas tarde
— a maçaneta ainda gira,
o batente range, e eu já te varro contra o reboco,
teu sobretudo voa, tua nuca estala,
Não há licença, não há trégua, não há prece,
é só a fome que acumulei por meses,
teu cheiro de rua, de chuva, de ausência,
e eu mordendo teu lábio como quem reconhece.
Te empurro, te viro, te encosto no espelho,
teu reflexo embaça com o meu hálito quente,
eu rasgo o teu peito com os dentes
— vermelho,
e tu me atravessas, e eu grito, e a gente
se desmancha em suor, em sal, em tremedeira,
tua mão no meu cós, minha unha na tua costela,
eu te cavalgo às cegas, na parede, na cadeira,
e a casa inteira range
— vela que se atropela.
Teu nome escorre pela minha espinha,
eu te chamo de todas as sílabas sujas,
tua respiração é uma lança que me pinha,
e eu abro as pernas como quem abre bússolas.
Te sinto crescer, te sinto subir, te sinto rachar,
cada centímetro teu é um golpe que me dobra,
eu te engulo inteiro, eu te bebo, sem ar,
e o meu gozo é um nó que desaba e te sobra.
Depois, quando o suor seca nos nossos ombros,
e o teu peso ainda treme sobre o meu quadril,
eu sinto o teu coração
— dois tambores aos socos —
e sei que o inferno é pouco perto do que eu senti.
Não me beija, não me fala, não me limpa,
só me deixa aqui, aberta, ofegante, viva,
que eu ainda tenho o teu gosto na minha pinta,
e a tua marca na coxa
— e a noite inteira é minha.
❦
Cléia Fialho
.jpg)
.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
🐾 OBRIGADA PELA SUA PRESENÇA
🐾 É SEMPRE MUITO BOM TER VOCÊ AQUI
🐾 FIQUE À VONTADE PARA COMENTAR OU FAZER UMA INTERAÇÃO NAS POESIAS
🐾 SERÁ UM IMENSO PRAZER COLOCÁ-LA JUNTO À MINHA
🐾 VOLTE SEMPRE!
AFAGOS POÉTICOS EM SEU 💗
🐾