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quarta-feira, 30 de julho de 2014

À QUEIMA-ROUPA — SEM RESPIRAR




Chegas tarde 
— a maçaneta ainda gira,  
o batente range, e eu já te varro contra o reboco,  
teu sobretudo voa, tua nuca estala,  
e a minha boca te come como quem abre um soco.  

Não há licença, não há trégua, não há prece,  
é só a fome que acumulei por meses,  
teu cheiro de rua, de chuva, de ausência,  
e eu mordendo teu lábio como quem reconhece.  

Te empurro, te viro, te encosto no espelho,  
teu reflexo embaça com o meu hálito quente,  
eu rasgo o teu peito com os dentes 
— vermelho,  
e tu me atravessas, e eu grito, e a gente  

se desmancha em suor, em sal, em tremedeira,  
tua mão no meu cós, minha unha na tua costela,  
eu te cavalgo às cegas, na parede, na cadeira,  
e a casa inteira range 
— vela que se atropela.  

Teu nome escorre pela minha espinha,  
eu te chamo de todas as sílabas sujas,  
tua respiração é uma lança que me pinha,  
e eu abro as pernas como quem abre bússolas.  

Te sinto crescer, te sinto subir, te sinto rachar,  
cada centímetro teu é um golpe que me dobra,  
eu te engulo inteiro, eu te bebo, sem ar,  
e o meu gozo é um nó que desaba e te sobra.  

Depois, quando o suor seca nos nossos ombros,  
e o teu peso ainda treme sobre o meu quadril,  
eu sinto o teu coração 
— dois tambores aos socos —  
e sei que o inferno é pouco perto do que eu senti.  

Não me beija, não me fala, não me limpa,  
só me deixa aqui, aberta, ofegante, viva,  
que eu ainda tenho o teu gosto na minha pinta,  
e a tua marca na coxa 
— e a noite inteira é minha.






Cléia Fialho

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