O teu fôlego muda de ritmo.
O silêncio deixa de existir.
Há apenas o som grave
das vontades escapando do peito,
que denuncia aquilo
que nenhuma palavra conseguiria esconder.
É desejo.
É vertigem.
É a sede antiga
que regressa sempre mais feroz.
Meus lábios percorrem teu caminho
na lentidão de quem saboreia
cada segundo roubado ao mundo.
A distância desaba entre nós
feito muralha vencida,
e tudo o que restou da espera
escorre na pele,
quente,
vivo,
inevitável.
Meus dedos avançam sem pressa,
descobrindo relevos,
temperaturas,
o desenho secreto
que teu corpo guardava
para o instante exato
em que o meu chegasse.
Cada gesto desperta outro.
Cada arrepio chama o seguinte.
Somos dois incêndios
alimentando a mesma chama,
sem medo da fumaça,
sem receio das cinzas.
Desfaço as barreiras
uma após outra,
como quem abre portas
de uma casa abandonada pelo juízo.
O tecido desliza.
O ar encontra tua pele.
Meus olhos bebem
o espetáculo inteiro
antes mesmo que minhas mãos
o reclamem para si.
Aproximo-me outra vez,
encurtando o espaço
até não existir fronteira
entre teu calor
e o meu.
Minha boca desenha caminhos
sobre teu pescoço,
demora-se onde teu pulso acelera,
onde o sangue parece cantar
sob a superfície da pele.
Ali deposito promessas mudas,
beijos que queimam devagar
e permanecem
muito depois do toque.
Minhas unhas deixam rastros discretos,
assinaturas de um instante
que não aceita ser esquecido.
Te abraço com a força
de quem deseja interromper o tempo,
fazendo da noite
um lugar sem relógios.
Teu corpo responde
num idioma primitivo,
feito tempestade rompendo o horizonte.
E o meu acompanha,
sem resistência,
sem defesa,
inteiramente entregue
ao magnetismo da tua presença.
Há algo selvagem
na maneira como nos encontramos.
Não existe medida.
Não existe cálculo.
Existe apenas essa corrente elétrica
atravessando músculos,
respiração,
pensamentos,
até transformar lucidez
em puro delírio.
A madrugada se curva diante da nossa febre.
As sombras observam caladas
enquanto nossos corpos escrevem,
um no outro,
uma história impossível de apagar.
Quando enfim repouso a fronte
contra ti,
percebo que ainda existe
uma fome intacta,
uma vontade insaciável
que não termina com o toque,
nem com o beijo,
nem com o silêncio.
Porque certos desejos
não procuram descanso.
Apenas outra oportunidade
de incendiar a noite
e renascer,
mais intensos,
nas brasas
que insistem em permanecer acesas.
❦
Cléia Fialho
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