Ajoelho-me diante de ti na penumbra estreita do corredor,
antes ainda de fecharmos a porta atrás de nós,
antes ainda das luzes cederem, antes das palavras cansarem.
como quem abre um envelope selado há semanas
e sabe que a carta lá dentro é para mim.
Ergo os olhos até aos teus antes de te tomar na boca,
porque quero que vejas — quero que me vejas
enquanto os meus lábios se fecham à volta do que te pulsa,
enquanto a minha língua desenha em ti o mapa esquecido
das madrugadas insones,
das mensagens escritas e apagadas sem envio.
Provo-te sem pressa nenhuma.
Cada centímetro é um verso demorado,
cada movimento da minha garganta é uma sílaba obscena
que só tu decifras.
Recolho o teu gemido como quem colhe amoras selvagens —
com cuidado, sem esmagar, deixando o suco escorrer entre os dedos —
e sinto a tua coxa tremer contra a minha face,
a tua garganta arder num rugido baixo, animal, teu.
Chamas-me puta.
Chamas-me dona.
Chamas-me tua.
E eu respondo com a boca ocupada,
com um sorriso que só se ouve nos meus olhos.
Depois levanto-me. Empurro-te para dentro do quarto.
Arranco-te a camisa botão por botão —
salta um pela sala, salta outro para debaixo da cama,
e nenhum de nós há-de dar por eles até amanhã.
Desço-te a boca pelo pescoço, mordo-te a espádua,
chupo-te o mamilo até tu praguejares baixinho,
percorro-te o ventre com a língua molhada
até sentir a tua respiração perder o compasso.
A minha mão sobe-me a saia até à cintura,
apresenta-te aquilo que já espera por ti há horas —
molhado, quente, sem pudor, sem defesa.
Passas-me os dedos por cima da renda,
provocas-me devagar,
sentes-me a ceder através do tecido fino,
e ris obscenamente contra o meu ouvido:
"Estás assim para mim há quanto tempo?"
"Desde as três da tarde. Desde que me escreveste."
"Então merecias esperar mais um bocado."
Mas não me deixas esperar.
Empurras-me contra a parede, arrancas-me a renda de vez,
ergues-me pelas coxas, e entras em mim de uma só vez —
fundo, sem paciência, sem cortesia,
o alívio brutal de quem enfim chegou a casa.
Grito.
Grito contra o teu pescoço, grito com a boca aberta,
grito palavras que envergonhariam a mulher que sou de dia,
e tu ris rouco entre gemidos, ris satisfeito,
porque sabes que só tu consegues arrancar-me esta voz.
Bates-me contra a parede.
Empurras-me de bruços sobre o colchão desfeito.
Ergues-me as ancas com uma mão firme
enquanto a outra desce-me pelo pescoço,
me aperta de leve — só o suficiente para eu tremer,
só o suficiente para eu saber que sou tua —
e voltas a enterrar-te em mim, ainda mais fundo,
com um ritmo que é tempestade e é tortura ao mesmo tempo.
Não me deixas descansar. Não hoje. Não agora.
Tenho fome atrasada de dias.
Tenho sede antiga que só a tua carne apaga.
E tu tens paciência de quem sabe que a noite é longa,
e cavalgas-me sem trégua, sem clemência, sem pressa,
mordendo-me a nuca até deixar-me marca,
puxando-me o cabelo até me fazer gemer o teu vício,
empurrando-me contra o colchão até eu esquecer o mundo.
Vem para mim, meu tesão, meu senhor, meu safado.
Vem para dentro. Fundo. Todo.
Derrama-te em mim como quem entorna um copo raro,
sem economia, sem susto, sem regresso.
Deixa a tua marca por dentro do meu ventre,
quente, teimosa, obscena,
para que amanhã, quando eu andar pela rua vestida,
sinta-te ainda a escorrer devagar pelas coxas
e sorria sozinha, no meio dos outros,
como quem carrega um segredo húmido
que ninguém consegue adivinhar.
E quando finalmente me abraçares por trás,
quando finalmente adormeceres com a boca no meu ombro,
com o teu peito colado às minhas costas suadas,
com uma mão pousada onde ninguém mais pousa —
sabe que a noite ainda não acabou.
Sabe que daqui a uma hora eu volto a acordar-te.
Sabe que hoje tu não dormes.
Sabe que hoje eu não te deixo.
❦
Cléia Fialho
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