Quando a aurora rasgar o horizonte,
exaustos e saciados, sorriremos ainda presos,
nossas pernas enlaçadas como raízes,
nossos corpos tatuados por cicatrizes de prazer,
versos gravados nos lençóis desfeitos,
histórias contadas pelo suor que secou em marcas.
Agora estás aqui
— carne viva, suor ardente, fome que não se cala
—meu corpo reconhece o teu antes mesmo da alma,
como se a memória fosse feita de pele,
como se o desejo fosse mais antigo que o pensamento.
Abro-te em silêncio,
as coxas se tornam portais,
cavalgo-te sem nome, sem fronteira,
sou mar que invade,
sou tempestade que se assenta,
sou calma faminta,
sou vertigem molhada.
Teu peito é altar,
minha boca é chama,
meus dentes são feridas que celebram,
minhas unhas são relâmpagos que riscam tua pele.
Cada gemido é um trovão,
cada respiração é um terremoto,
cada olhar é um abismo que nos engole.
O tempo se dissolve,
não há relógio, não há mundo,
apenas o ritmo cru,
o choque selvagem,
o rito visceral que nos consome.
E quando o sol nascer,
seremos ainda incêndio,
seremos ainda vertigem,
seremos ainda selvageria.
Nossos corpos, exaustos,
ainda se buscarão como feras,
ainda se morderão como tempestades,
ainda se amarão como se fosse o último dia.
E nos lençóis rasgados,
nas marcas que brilham como cicatrizes sagradas,
escreveremos poemas sem palavras,
versos de carne,
estrofes de suor,
livros inteiros feitos de gemidos,
histórias que só a pele entende.
Porque somos fogo que não se apaga,
somos desejo que não se cala,
somos selvageria que não conhece fim,
somos poesia crua, intensa,
somos arrebatamento que devora,
somos o abismo que se abre e nunca se fecha.
❦
Cléia Fialho
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