Chegas enfim, depois de tanto tempo ausente,
e o ar muda de peso quando teus passos tocam o chão.
A casa inteira parece menor,
como se o mundo se recolhesse
Nem a porta termina de se fechar
e já sinto o impacto da tua presença
como um choque quente, inevitável.
Há meses guardados na pele,
há saudade comprimida no peito,
há uma fome antiga, viva, urgente,
que reconhece em ti o seu querer verdadeiro.
Eu me aproximo sem medir o gesto,
atraída por essa força que não sabe ser mansa.
Tua boca encontra a minha
com a pressa de quem atravessou a distância inteira
para cair de novo no centro do desejo.
E tudo ao redor perde a nitidez,
perde o contorno,
perde a razão de existir.
Teu corpo se impõe como chama aberta,
e o meu responde com a mesma intensidade,
como se cada parte de mim
já estivesse esperando por esse instante
desde muito antes do tempo.
Há calor demais na respiração,
há vertigem demais no toque,
há uma urgência sem nome
correndo sob a pele.
Sinto a noite ficar estreita,
sinto o silêncio se desfazer em pulsações,
sinto a entrega crescendo
como maré que não pede licença.
Teu peso, tua força, tua presença
se misturam ao meu impulso
numa dança bruta, magnética, selvagem.
Tudo em mim arde quando te encontro.
Tudo em ti parece feito
para acender o que eu escondo.
E nesse reencontro sem defesa,
sem medida, sem demora,
o desejo deixa de ser promessa
e vira incêndio.
❦
Cléia Fialho
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