e o ar entre nós ficou cheio de febre.
Selamos os lábios com pressa e vertigem,
como se o mundo coubesse
na urgência de um beijo.
Tua voz me atravessa os ouvidos
com doçura e intensidade,
feito música que acende a pele
sem pedir permissão.
E eu me deixo levar
por essa melodia viva
que me chama para perto
e me desmonta por dentro.
Absorve-me,
diz o silêncio entre os nossos gestos,
e eu me entrego ao abismo bonito
de cair em ti
sem medo da queda.
Quando me inclino na tua direção,
quero ser teu lugar mais fundo,
teu caminho mais secreto,
teu descanso e tua fome.
Quero ser a terra sob teu impulso,
o céu onde teus sonhos respiram,
a matéria viva do teu desejo.
Caio devagar,
como vento que aprende a ser abraço,
como neve que toca sem ferir,
como claridade mansa cobrindo o mundo.
Mas por baixo dessa maciez
arde uma chama inteira,
e é nela que me revelo.
Sou o frio que encanta teu olhar,
mas também o calor que te desperta.
Sou o mistério que te cerca
e a presença que te chama.
Sou aquilo que desejas encontrar
quando a noite se abre
e o corpo pede mais do que silêncio.
❦
Cléia Fialho

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