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sexta-feira, 25 de julho de 2014

O ATO NO ESCURO




Os dias se arrastam num ciclo vicioso de gritos e silêncios. Quando não estamos berrando um com o outro, simplesmente nos ignoramos. É exaustivo. É desgastante. Não é vida para ninguém.

Mas ontem...

Ontem foi diferente.

Também tivemos nossas discussões, nossas raivas, nossas explosões por motivos que já nem lembro. Palavras ditas em voz alta, acusações jogadas como pedras. O de sempre.

Depois disso, porém, veio um silêncio que nos engoliu inteiros.

Um silêncio denso, escuro, que nos envolveu como um véu e nos arrancou da realidade onde temos vivido. Naquela escuridão profunda, onde não conseguíamos ver nem os contornos dos nossos próprios corpos, onde o pensamento ecoava mais alto que qualquer palavra, ele me puxou para si.

Ou melhor, ele me abraçou.

Seus lábios encontraram os meus como se fosse a primeira vez — e não estou falando de romance, mas de estranhamento. O gosto era diferente. O toque era novo. Havia algo ali que não reconhecia.

Senti vergonha. Uma timidez que não esperava sentir. Retribuí o beijo sem entusiasmo, quase por obrigação, como quem cumpre um dever.

Fazia tanto tempo desde a última vez que estávamos assim que parecíamos dois desconhecidos. Dois estranhos aprendendo a linguagem do corpo um do outro. Toques que não nos pertenciam, beijos que não pareciam nossos.

No silêncio, só se ouvia a respiração. Baixa, hesitante, como se o ar tivesse medo de fazer barulho.

Eu sentia o desejo dele crescer — evidente, sem pudor. O meu, porém, não acompanhava. Fiquei ali, apenas recebendo. Deixando que me beijasse, que me tocasse, que explorasse meu corpo sem que eu realmente me entregasse.

Nenhum gemido escapou. Nenhum som. Apenas a respiração ofegante dele sobre mim, e a minha — levemente descontrolada, mas sem paixão.

Minha roupa foi removida. Minhas pernas se abriram. Ele se posicionou como quis, como precisava. Seus beijos desceram pelo meu corpo, sua língua percorreu cada centímetro da minha pele — mamilos, barriga, umbigo, até chegar à minha intimidade, molhada, sim, mas vazia de emoção.

Ele me lambeu inteira. Tocou-me onde sempre tocou. Mas eu estava ali apenas com o corpo, a mente em algum outro lugar.

Quando ele me penetrou — duro, vigoroso — minhas entranhas o receberam, mas não o abraçaram. Era uma recepção fria, mecânica, como quem cumpre uma função biológica.

O prazer chegou mesmo assim. O orgasmo veio, tomou conta de mim, fez meu corpo se contrair como sempre fazia. Eu sabia que estava molhada, sabia que meu corpo respondia, sabia que isso só aceleraria o momento dele.

Mas não houve um som. Nenhum gemido. Nenhuma palavra. Foi um orgasmo mudo, estranho, como eu nunca imaginei ser possível.

Quando as contrações diminuíram, ele se enterrou em mim com mais força, num vai e vem que já não pedia licença. E veio também.

Ficamos assim. Eu deitada, pernas abertas, ele sobre mim, o peso do seu corpo quente e suado. E o silêncio continuava. Aquele silêncio escuro que nos abafava, nos escondia, nos ensurdecida.

Não sei definir o que aconteceu.

Não foi amor. Isso eu sei. Não foi amor há muito tempo.

Mas também não foi apenas sexo. Houve algo ali no meio, uma coisa que não tem nome, um sentimento cinza que não cabe em categorias.

Talvez tenha sido só a satisfação de uma necessidade. Como matar a fome. Como beber água. Como qualquer outra função do corpo.

Não sei.

E o pior: ainda não decidi se gostei.







Cléia Fialho

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