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quinta-feira, 3 de julho de 2014

PAIXÃO INDOMÁVEL




Atravessei madrugadas
alimentando-me da lembrança do teu rosto,
enquanto a saudade
ardia silenciosa
na curva do meu peito.

Toda noite
eu fechava os olhos
e era tua presença
que invadia os meus sonhos.
Tua voz surgia primeiro,
quente,
envolvente,
como vento de verão
percorrendo minha pele.
Depois vinham teus olhos,
capazes de incendiar
o que ainda restava
da minha paciência.

Meu corpo aprendeu
a reconhecer tua ausência
como quem sente falta
do próprio ar.
Cada músculo guardava
a memória dos teus gestos,
cada arrepio
era uma promessa
adiada pelo tempo.

Quando enfim
te imaginei outra vez
diante de mim,
não havia espaço
para palavras.
Só existia
o magnetismo feroz
que sempre nos arrasta
um para o outro.

Aproximei-me devagar,
como quem deseja prolongar
o instante antes do encontro.
Saboreei cada segundo,
cada respiração,
cada centímetro
que diminuía a distância
entre nós.

Meu olhar percorreu
o mapa do teu corpo
com a calma de quem retorna
ao lugar
onde sempre pertenceu.

Depois,
a espera perdeu o comando.

O coração acelerou.
O fôlego encurtou.
O desejo rompeu
qualquer disciplina
que eu ainda fingia possuir.

Deixei que minha pele
falasse antes da voz.
Que meus olhos
confessassem tudo
o que os lábios
já não conseguiam esconder.

Havia em mim
uma chama antiga,
alimentada durante meses,
crescendo em silêncio,
até transformar-se
num incêndio impossível
de conter.

Cada abraço
apagava um dia de ausência.
Cada beijo
desmanchava uma noite de saudade.
Cada instante ao teu lado
devolvia à minha alma
a parte que faltava.

Descobri então
que o desejo
não nasce apenas do toque.

Ele floresce na espera,
amadurece na distância
e regressa mais intenso
quando dois corações
voltam a reconhecer
o caminho um do outro.

Foi assim
que a noite nos encontrou:
inteiros,
desarmados,
consumidos pela mesma febre,
envolvidos pela mesma vertigem,
até que o tempo,
vencido,
deixasse de existir.

E restasse somente
essa paixão indomável,
selvagem como o vento,
profunda como o mar,
capaz de atravessar
todas as ausências
para renascer,
mais viva,
mais ardente,
em cada reencontro.






Cléia Fialho

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