Tuas mãos não tocam —
elas invadem como língua de fogo em carne viva.
Não há leveza
— há garra, há dente, há sede.
Teu toque não acaricia: ele desbrava
fundeia na curva do quadril
escava a nuca
morde a coxa por dentro
e eu tremo igual animal pressentindo o abate.
Tuas palmas escorregam suor e fúria
desenham ciclones na minha espinha.
E enquanto descem
minhas vísceras viram rio
meu peito vira grito
meu sexo vira fera pronta pra morder tua mão.
Não peço calma — peço o estrondo
que tuas unhas prometem quando roçam meu ventre.
Quero que tua mão feche como garra no meu pescoço
enquanto a outra me abre
como fruta
como ferida
como porta que não tranca mais
Teu dedo mindinho desce devagar
e cada milímetro que ele ganha
eu perco o chão
perco o medo
e fico só esse músculo quente
implorando pra ser mordido de novo.
❦
Cléia Fialho
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