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segunda-feira, 30 de junho de 2014

A MULHER QUE TE COME




Te sonhei sem nunca tocar o meu próprio corpo,  
te inventei em ângulos que a geometria não abraça.  

Tua boca desenhava círculos tortos no meu pescoço,  
teu peso caía como um telhado sobre o meu peito,  
e eu acordava molhada, vazia, com o lençol enroscado,  
e o teu nome preso entre os meus dentes — feito prego.  

Agora chegas.  
E eu não corro, não pulo, não grito.  
Eu fico.  
Te olho.  
Te cheiro.  
Te provo com os olhos antes 
que os dedos façam o trabalho sujo.  

Começo devagar 
— como quem desce uma escada no escuro,  
como quem abre uma carta que já sabe que vai doer,  
como quem lambe o sal antes de morder a fruta.  

Minha mão desliza pelo teu ventre como um rio preguiçoso,  
meus lábios roçam a tua clavícula como quem pede licença,  
mas é só pra te enganar,  
porque eu já estou armada,  
porque eu já estou molhada,  
porque eu já estou pronta há séculos.  

E quando eu acelero —  
quando o meu quadril perde o ritmo e vira uma besta,  
quando a minha boca esquece o nome das coisas,  
quando o meu dedo te guia e te enfia e te prende
—  não há santo que me segure,  
não há parede que não trema com o meu berro.  

Ergo os seios como quem ergue um cálice,  
te ofereço o bico duro, a aréola escura, o peso quente,  
e tu não precisas de licença, não precisas de reza,  
só precisas de abrir a boca  
e me morder como quem morde o último pedaço de pão.  

Puxa, morde, aperta,  
arranca de mim esse gemido que está preso na minha garganta há noites.

Teu dente no meu peito é um eletrochoque,  
tua língua no meu bico é uma fogueira,  
e eu arqueio as costas, eu jogo a cabeça pra trás,  
eu abro as pernas como quem abre uma porta  
e te digo: entra, entra, entra,  
que eu já estou toda tua —  
seio, útero, nuca, ventre,  
cada centímetro do meu corpo é um endereço  
que só o teu nome pode achar.  

Não para, não para, não para.  
Tu me viras, me dobras, me quebras,  
me enfias contra a parede, 
contra o chão, contra o colchão,  
e eu grito teu nome 
— não ele, o outro, o mais sujo,  
aquele que só eu sei quando tu me penetras fundo  
e o mundo desaba e o quarto incendeia  
e o suor escorre pelas minhas coxas como um rio  
que deságua em ti, em mim, em nós.  

Depois, quando o fogo baixa,  
quando a respiração volta a ser fôlego  
e não um uivo,  
eu ainda sinto o teu dente no meu mamilo,  
a tua unha na minha nuca,  
o teu cheiro em cada poro.  

E eu sorrio — porque a espera acabou,  
porque a carne voltou à carne,  
porque o tempo virou migalha 
debaixo dos nossos corpos.  

Agora,  
me morde outra vez.  
Agora,  
me fode sem pressa.  
Agora,  
me nomeia como quem batiza uma besta.  

Que eu já não sou mais a mulher que esperou,  
eu sou a mulher que te come,  
que te engole, que te cospe,  
que te chama de volta  
só pra te devorar de novo.







Cléia Fialho

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