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domingo, 29 de junho de 2014

SÓ PRECISO DE TI




E quando a manhã rasgar o vidro da janela,  
e o sol pisar no nosso suor já seco,  
nós ainda vamos estar 
— perna na perna, pele na pele 
— como dois nós que ninguém desfaz,  
como dois cacos que se encaixam no escuro.  

Os lençóis vão ser um mapa de rugas,  
as nossas costas, um livro de marcas,  
e cada unhada, cada dente marcado,  
vai ser um verso que a gente não precisa ler em voz alta  
porque o corpo já decorou a melodia.  

Mas antes disso —  
antes do sol, antes da calma,  
antes que o relógio ouse lembrar o mundo —  
tu entras pela porta como quem entra em mim,  
sem bater, sem pedir, sem avisar.  

Já te cheiras a temporal,  
já tens o gosto da rua nos lábios,  
e eu não pergunto quanto tempo,  
não pergunto onde estiveste,  
porque o meu quadril já respondeu antes da minha boca,  
porque a minha entreperna já te reconheceu  
como quem reconhece o incêndio antes da fagulha.  

Te puxo pelos ossos,  
te arranco o casaco como quem tira a própria pele,  
te mordo o ombro — e tu gemes,  
e esse gemido é o único idioma que eu quero aprender  
nesta vida e na próxima,  
e na próxima, e na próxima.  

Te cavalgo como quem monta uma besta sem rédea,  
te sento em mim, te encaixo, te absorvo,  
cada centímetro que tu entras  
é uma ferrovia que eu abro no meu ventre,  
e eu não quero que o trem pare,  
não quero que o ar volte,  
não quero que o chão exista.  

Tu me olhas — e eu ardo.  
Tu me tocas — e eu desabo.  
Tu me empurras contra o colchão,  
e eu sou um rio que se rasga,  
sou uma cascata que se oferece,  
sou uma fruta que se parte ao meio  
só para sentir o teu dente no meu caroço.  

E quando tu finalmente entras —  
devagar, fundo, sem pressa, como quem abre um livro sagrado —  
eu grito o teu nome com todas as vogais que o meu peito guardou,  
e o meu dorso arqueia, e a minha nuca estala,  
e as minhas unhas desenham na tua costela  
um mapa que só o teu sangue vai ler.  

Não para.  
Não pára.  
Não pode parar.  

Tu me viras de bruços, tu me seguras pelos cabelos,  
e eu sou a tua presa, a tua oferenda, a tua brasa,  
cada golpe do teu quadril é uma badalada,  
cada gemido meu é um sino que se parte,  
e eu te chamo de senhor e te chamo de besta  
e te chamo de tudo o que deus esqueceu de batizar.  

Suamos.  
Tremeu a cama.  
Tremeu o chão.  
Tremeu o poste da rua, a lua, o vento, o tempo.  

E depois —  
depois que o gozo passou como um vagão desgovernado,  
depois que o meu nome saiu da tua boca em fumaça,  
depois que as tuas mãos pararam de tremer no meu ombro —  
nós ficamos.  

Ficamos em silêncio, de pernas entrelaçadas,  
o teu joelho ainda entre as minhas coxas,  
o meu pé ainda dobrado no teu tornozelo,  
e a respiração lenta,  
e o coração batendo como dois tambores desafinados,  
mas juntos.  

Agora o dia vai romper,  
e a luz vai mostrar as marcas no lençol,  
as marcas na minha pele, as marcas no teu lábio,  
e eu vou olhar para elas —  
e vou querer escrever cada uma com a minha língua,  
vou querer ler cada arranhão como se fosse um poema,  
vou querer guardar como uma relíquia.  

Porque tu não vieste só com o teu corpo,  
tu vieste com a tua demora,  
com a tua ausência que pesou como chumbo,  
com a tua volta que me derrubou os muros.  

E agora que estás aqui — de carne, de sal, de fôlego —  
eu não preciso de palavras,  
não preciso de juras,  
não preciso de amanhã.  

Só preciso de ti,  
dentro de mim,  
fora de mim,  
sobre mim,  
em mim.  

Até o sol queimar os vidros.  
Até a vizinha bater na parede.  
Até o nosso suor virar poeira.  

E depois —  
quando tudo se calar —  
nós ainda vamos estar aqui,  
enleados, marcados, vivos,  
com as cicatrizes que a gente fez  
se beijando no escuro.






Cléia Fialho

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