E quando a manhã rasgar o vidro da janela,
e o sol pisar no nosso suor já seco,
nós ainda vamos estar
— perna na perna, pele na pele
como dois cacos que se encaixam no escuro.
Os lençóis vão ser um mapa de rugas,
as nossas costas, um livro de marcas,
e cada unhada, cada dente marcado,
vai ser um verso que a gente não precisa ler em voz alta
porque o corpo já decorou a melodia.
Mas antes disso —
antes do sol, antes da calma,
antes que o relógio ouse lembrar o mundo —
tu entras pela porta como quem entra em mim,
sem bater, sem pedir, sem avisar.
Já te cheiras a temporal,
já tens o gosto da rua nos lábios,
e eu não pergunto quanto tempo,
não pergunto onde estiveste,
porque o meu quadril já respondeu antes da minha boca,
porque a minha entreperna já te reconheceu
como quem reconhece o incêndio antes da fagulha.
Te puxo pelos ossos,
te arranco o casaco como quem tira a própria pele,
te mordo o ombro — e tu gemes,
e esse gemido é o único idioma que eu quero aprender
nesta vida e na próxima,
e na próxima, e na próxima.
Te cavalgo como quem monta uma besta sem rédea,
te sento em mim, te encaixo, te absorvo,
cada centímetro que tu entras
é uma ferrovia que eu abro no meu ventre,
e eu não quero que o trem pare,
não quero que o ar volte,
não quero que o chão exista.
Tu me olhas — e eu ardo.
Tu me tocas — e eu desabo.
Tu me empurras contra o colchão,
e eu sou um rio que se rasga,
sou uma cascata que se oferece,
sou uma fruta que se parte ao meio
só para sentir o teu dente no meu caroço.
E quando tu finalmente entras —
devagar, fundo, sem pressa, como quem abre um livro sagrado —
eu grito o teu nome com todas as vogais que o meu peito guardou,
e o meu dorso arqueia, e a minha nuca estala,
e as minhas unhas desenham na tua costela
um mapa que só o teu sangue vai ler.
Não para.
Não pára.
Não pode parar.
Tu me viras de bruços, tu me seguras pelos cabelos,
e eu sou a tua presa, a tua oferenda, a tua brasa,
cada golpe do teu quadril é uma badalada,
cada gemido meu é um sino que se parte,
e eu te chamo de senhor e te chamo de besta
e te chamo de tudo o que deus esqueceu de batizar.
Suamos.
Tremeu a cama.
Tremeu o chão.
Tremeu o poste da rua, a lua, o vento, o tempo.
E depois —
depois que o gozo passou como um vagão desgovernado,
depois que o meu nome saiu da tua boca em fumaça,
depois que as tuas mãos pararam de tremer no meu ombro —
nós ficamos.
Ficamos em silêncio, de pernas entrelaçadas,
o teu joelho ainda entre as minhas coxas,
o meu pé ainda dobrado no teu tornozelo,
e a respiração lenta,
e o coração batendo como dois tambores desafinados,
mas juntos.
Agora o dia vai romper,
e a luz vai mostrar as marcas no lençol,
as marcas na minha pele, as marcas no teu lábio,
e eu vou olhar para elas —
e vou querer escrever cada uma com a minha língua,
vou querer ler cada arranhão como se fosse um poema,
vou querer guardar como uma relíquia.
Porque tu não vieste só com o teu corpo,
tu vieste com a tua demora,
com a tua ausência que pesou como chumbo,
com a tua volta que me derrubou os muros.
E agora que estás aqui — de carne, de sal, de fôlego —
eu não preciso de palavras,
não preciso de juras,
não preciso de amanhã.
Só preciso de ti,
dentro de mim,
fora de mim,
sobre mim,
em mim.
Até o sol queimar os vidros.
Até a vizinha bater na parede.
Até o nosso suor virar poeira.
E depois —
quando tudo se calar —
nós ainda vamos estar aqui,
enleados, marcados, vivos,
com as cicatrizes que a gente fez
se beijando no escuro.
❦
Cléia Fialho
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