Que o chão trema, que o teto sua,
que a vizinha bata na parede e eu grite mais alto,
que o poste da rua apague de vergonha,
que o cão ladre, que o vento pare,
debaixo do teu peso, em cima do teu peito,
dentro do teu gemido que não cabe em mim.
Me come como quem arranca fruta podre do galho,
me mastiga com os dentes de trás,
me engasga com o teu nome que eu engulo,
e depois me cospe na cama,
e depois me lambe do chão,
e depois me enfia de novo no teu osso,
até que o meu espinho seja uma ferroada,
e o teu calcanhar, um martelo,
e o meu útero, uma forja.
Não para, não diminui, não tem piedade—
eu quero o teu braço me segurando pelos pelos,
eu quero a tua unha me arranhando o ombro,
eu quero a tua frase maldita no meu ouvido,
aquela que só você sabe dizer quando a luz apaga
e o teu hálito vira álcool,
e a tua língua vira espora,
e o meu clitóris vira cinzenta,
e eu viro uma besta que babra e chora e ri
enquanto teu dedo me abre como uma carta
que ninguém devia ter lido.
Troca o lençol, troca o ar, troca a pele,
me vira do avesso, me dobra na cintura,
me encosta na janela, me mostra pro céu,
deixa que a lua veja como eu te montodesmorono,
deixa que o vizinho grave o meu berro,
que eu não tenho vergonha, tenho fome,
e a tua boca é o único prato,
e o teu sexo é o único garfo,
e eu sou a carne que se abre em flor,
em chama, em lama, em lava.
Me entra como quem derruba muro,
me sai como quem volta pra roubar,
me deixa marcada, me deixa mordaça,
me deixa o cheiro do teu pescoço na minha narina,
e o teu sabor na minha língua—
por três dias, por sete noites,
até que eu esqueça o meu próprio nome
e só lembre o jeito que teu quadril se quebra
quando eu aperto as minhas coxas em volta da tua cintura
e abro os meus braços— e caio.
Caio e berro e te chamo de todos os nomes proibidos,
e te abraço com as pernas, te mordo com os olhos,
te aspiro com o peito, te expiro com o ombro,
e no final, quando o suor secar,
quando o meu joelho doer,
quando a tua coxa parar de tremer,
eu ainda vou estar aqui—
aberta, úmida, quente,
pronta pra te engolir de novo,
desde que você me chame,
desde que você me quebre,
desde que você me nomeie com essa voz
que faz o meu útero se revirar
e o meu coração—
palpitar como um tambor de macumba
dizendo:
vem — vem — vem — vem
que eu já estou de quatro no chão
com a cara enterrada no teu colchão
e a boca aberta pra te receber
como quem recebe um tiro
e agradece.
❦
Cléia Fialho
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